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  "textContent": "\nRoberto Rivellino, recém-contratado do Fluminense, tinha a missão de levar o clube à decisão do Campeonato Carioca de 1975. Nas quartas de final, quando recebeu a bola próximo da entrada da área, ele tinha três opções de passe para companheiros de time, mas decidiu seguir por outro caminho. Aplicou um drible rápido: o corpo gingou para a direita, a bola rolou para a esquerda e passou por entre as pernas do marcador vascaíno Alcir Portella. O craque tricolor venceu mais dois zagueiros, bateu no canto esquerdo da trave, marcou um belo gol e deixou a defesa da equipe adversária atordoada diante de mais de 50 mil torcedores no Maracanã. A promessa estava paga. O Fluminense depois venceu o campeonato estadual e o drible, que já fazia parte do repertório de Rivellino e causava expectativa na torcida em vê-lo, reforçou seu espaço na história. Tratava-se do elástico. Nas décadas seguintes, ele foi repetido por Messi, Ronaldinho Gaúcho, Ronaldo Fenômeno e Cristiano Ronaldo. Até hoje, quando perguntam como inventou a finta, Rivellino faz questão de corrigir. A autoria é de um colega do Corinthians dos anos 60, Sérgio Echigo. “Divulguei o drible elástico pelo mundo, mas sempre falei que o Sérgio foi quem o criou”, afirmou o ex-atleta a um podcast. “O japonês jogava muito.” Durante sua carreira, Echigo surpreendeu a todos. “Sempre me diziam: ‘Japonês não sabe sambar nem jogar bola’”, conta. No caso dele, o samba de fato passou longe. Já a habilidade no futebol o transformou numa celebridade singular. Nascido em São Paulo no mesmo ano do genocídio norte-americano em Hiroshima e Nagasaki, Echigo, 80, filho de pais imigrantes, conta que sua simples presença em campo na década de 1960 promovia a autoestima da comunidade japonesa no Brasil, país que por anos impôs restrições sociais a esse povo, antes inimigo na Segunda Guerra Mundial. Caravanas de nipônicos chegavam, vindas inclusive do interior paulista, para vê-lo jogar no chão de terra. O futebol vivia uma fase de experimentação, com reformulações táticas e profissionalização ainda tímida. Os atletas apostavam em estratégias informais, como o próprio drible, para chacoalhar a uniformidade das formações estrangeiras. “Era um verdadeiro celeiro de talentos, como Pelé, Garrincha…”, lembra Echigo. Sérgio Echigo Franco Amendola Para ele, o futebol no Brasil “é um jeito de se comunicar”. Na adolescência, o jovem via os vizinhos chutando bola de capotão na rua. Topou entrar na brincadeira, aqui e ali, até atrair torcedores do Corinthians conectados a olheiros. Começou a treinar no time amador do clube e, durante uma prática livre, jogou a bola para um lado, para o outro, até surgir um colega canhoto que viraria seu grande amigo. “Faz de novo isso aí?”, pediu Rivellino. A descrição inicial dos colegas foi “jogada de virilha”. Nela, a bola é tocada duas vezes com o mesmo pé e faz um movimento de “S”. Assim, o marcador acha que a bola vai para um lado, mas ela rola para o outro, o que permite ao atacante arrancar com velocidade. Por causa desse vaivém, surgiu o nome elástico. Echigo havia percebido que Garrincha ia sempre pela direita; já Pelé jogava a bola para um lado e a direcionava para a frente. O nissei calculou como sintetizar os dois movimentos e ganhar vantagem dentro de campo. Os companheiros acharam o truque divertido, mas desconfiavam se ele funcionaria em uma partida real. Num confronto contra uma equipe do interior, Echigo o colocou em prática. Um marcador tentou desarmá-lo, mas recebeu um elástico original, escorregou em um carrinho e foi parar fora do campo. “Brasileiro aprendendo drible com japonês? Isso não existia”, atesta. Echigo venceu o campeonato de aspirantes e depois treinou pelo Santos - então o lendário time de Pelé -, mas acabou sendo profissionalizado na categoria principal do Timão. “Eu tinha um contrato de gaveta fechado com o Corinthians”, conta. Nas Olimpíadas de Tóquio de 1964, havia grande chance de a seleção brasileira levar um representante nissei para o Japão. “Queria ir porque se tratava da terra dos meus pais, e iriam fazer toda uma propaganda em cima de mim”, diz. Segundo Echigo, os Jogos Olímpicos não representavam uma grande preocupação para os dirigentes da época, que teriam barrado sua convocação. Se os atletas atuais contam com equipes médicas robustas e um batalhão de agentes e assessores, o futebol nacional na década de 1960 ainda exibia acordos “de boca” e “bichos” (valor conquistado por vitória, em vez de altos contratos), além de exigências físicas dispendiosas, que levavam muitos jogadores ao esgotamento na juventude. Echigo passou por uma fase de desencanto. Pelo Corinthians, também foi colega do campeão mundial Garrincha, um dos maiores símbolos da instabilidade no esporte. Entre 1964 e 1966, o herói do Botafogo e da seleção sofria com artroses e uma bancarrota financeira. Em fim de carreira, foi contratado pelo Timão mais para atrair bilheteria do que para salvar a equipe. “Não é porque você jogou bola que vai ganhar um ordenado eterno”, reflete Echigo. “A maioria que começou comigo ficou ainda mais pobre do que antes.” E acrescenta: “Todos gostam do atleta jovem, mas, depois dos 30 anos, jogam você no lixo”. O paulistano não chegou sequer a essa marca no profissional. Foi emprestado ao Paulista, em Jundiaí, e depois ao Bragantino. A carreira acabou aos 24 anos, como ponta-direita do Corinthians, em 1965. Ele voltou ao trabalho formal em uma fábrica de metais que pertencia a empresários corintianos, seus admiradores. Nos anos seguintes, mesmo fora do campo, jamais foi esquecido por Rivellino. Na final da Copa de 1970, o amigo aplicou o elástico contra o zagueiro italiano Mario Bertini, que tinha a tarefa ingrata de tentar frear lendas como Pelé, Carlos Alberto, Gérson, Tostão e Jairzinho. Bertini pareceu irritado ao sair como bobo da finta, ainda mais na primeira transmissão mundial em cores do torneio. O resto é história. O Brasil tornou-se tricampeão e o elástico, imortalizado. Echigo assistiu às partidas de casa, até um empresário japonês bater à sua porta com uma proposta de atuar em times amadores no Japão. Incerto sobre se o futebol deveria voltar à sua lista de afazeres, consultou o dono da firma e recebeu uma resposta inesquecível: “Muita gente paga caro para mandar um filho para o exterior. Vão pagar você para isso”. O contrato envolvia moradia, hospedagem e um farto apoio do governo local para popularizar o esporte por lá. Revistas Newsletter Se no Brasil acreditavam que um “japonês” bom de bola era exceção, Echigo chegou à Terra do Sol Nascente em 1972 com status de celebridade - ainda mais entre atletas a anos-luz de gingar em campo. A ideia inicial era ficar dois anos no país, mas viu um trabalho mais desafiador do que o previsto e estendeu a estadia. Nos anos 80, abriu uma consultoria esportiva para buscar talentos e se tornou olheiro. Também treinou projetos sociais no futsal, atingindo a marca de 60 mil jovens atendidos. Na década de 1990, recepcionou Zico, então ídolo do Flamengo, para atuar no futebol japonês, no qual virou artilheiro pelo Kashima Antlers e depois diretor técnico do mesmo time. Nos anos 2000, o carioca assumiu o papel de técnico da seleção japonesa. “Quando me profissionalizei, Zico tinha 10 anos”, lembra Echigo. Em 2002, após mais de três décadas de esforços, Echigo assistiu à consagração de seu trabalho: a Copa disputada em estádios lotados na Coreia do Sul e no Japão. A eliminação da seleção japonesa nas oitavas de final não apagou a satisfação. O futebol, enfim, se tornara perene na nação. O ex-craque virou comentador televisivo do esporte, conquistando o público com humor brasileiro em meio à seriedade do noticiário asiático. “Echigo virou um grande corneteiro”, brinca Zico à GQ. No Japão há mais de cinquenta anos, Echigo tem dois filhos. A cada vez que o elástico é executado, sente orgulho. “Um drible não tem patente, mas quem diria que um japonês teria inventado uma finta de futebol que virou mundial?”",
  "title": "O inventor do drible elástico: ex-jogador do Corinthians conta como criou o lance na frente de Rivellino, e o viu ser replicado por Messi e CR7"
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