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  "textContent": "\nO ano era 2015. O chef Lisandro Lauretti tinha acabado de abrir a primeira unidade no Brasil do Jamie’s Italian. Dias depois, percebeu que os guardanapos de pano do restaurante, feitos com o logotipo da casa, começaram a desaparecer. O item tinha desenho exclusivo e havia sido comprado em um lote de 10 mil unidades para a inauguração. “Recebi os milhares. E fiquei sem nenhum”, afirma. “Isso não é historinha da carochinha, isso é fato”. O caso de Lauretti se soma a uma série de relatos de restaurantes que passaram a lidar com o furto de objetos por clientes como parte indesejada da operação. O tema ganhou repercussão depois que a chef Renata Vanzetto publicou, no último domingo (31/5), um vídeo nas redes sociais reclamando do sumiço de itens em seus estabelecimentos. A profissional está à frente do Grupo EME, com os restaurantes Mamma Vanzetto, Motel, Muquifo e Mi.Ado, além do bar Me Gusta, da lanchonete Matilda e da confeitaria Mimada Café. A lista citada por empresários e representantes do setor ouvidos pela GQ Brasil inclui guardanapos, talheres, pratos, cinzeiros, luminárias, copinhos de dose, saleiros, pimenteiros, copos, canecas de cobre, taças de cristal, facas de corte especial, saboneteiras de vidro, manta - oferecidas em dias frios, almofadas, potinhos de água para cachorro, além de enfeites e potinhos de cerâmica. No vídeo, Vanzetto diz que, quanto mais restaurantes tem e mais clientes atende, mais objetos somem. “Mais talheres somem, mais pratos somem”, afirmou. Segundo ela, cinzeiros usados em uma das casas precisam ser comprados mensalmente. A chef também relatou casos registrados por câmeras de segurança. “Chegam num carrão, pedem um vinho caro, enfiam quatro talheres de prata na bolsa, enfiam uma luminária na bolsa. A luminária da mesa, simplesmente enfia na bolsa. Uma luminária de R$ 1.500”, disse. “Não é roubo porque não teve ameaça, é furto”. Para Lauretti, o furto ocorre principalmente quando o objeto chama atenção ou passa a ser visto como uma lembrança do restaurante. No caso dos guardanapos, a equipe via clientes colocando o item na bolsa. Ainda assim, muitas vezes preferia não abordar. “É uma situação tão delicada que muitas vezes a gente finge que não viu. Porque, olha a situação por causa do guardanapo”, diz. Com itens mais caros, o restaurante mudou a operação. Lauretti cita um jogo de saleiro e pimenteiro, retirado da mesa antes da sobremesa para reduzir a oportunidade de furto. A equipe passou a recolher os objetos junto com os pratos principais, antes de entregar o cardápio de sobremesas. “A gente quebrava a expectativa. Quem estava a fim de fazer isso faz no final, para não dar tempo na hora de ir embora”, afirma. Segundo ele, o furto de itens com logotipo ainda costuma ser tratado por alguns clientes como se fosse uma lembrancinha. O caso muda, diz, quando o objeto não tem relação com a marca da casa e possui valor mais alto. “Você querer entender que a pessoa quer um souvenir é diferente de um pimenteiro e de um saleiro, que não têm a logo do restaurante e têm um valor agregado alto”, compara. Lauretti afirma que restaurantes já trabalham com perdas operacionais. Pratos quebram, taças caem, talheres podem parar no lixo durante a retirada da mesa. “Isso faz parte do jogo. Acontece”, diz. “É bem diferente de cair dentro da bolsa de alguém”. ‘Sempre que chega a novidade, o item some’ A sócia do Expedito Bar, Rafaella Wallner, diz que convive com pequenos furtos no estabelecimento, administrado por ela e pelo marido há 20 anos. A casa fica em um bairro rico, mas, segundo ela, isso não impede o sumiço de objetos. “A pessoa, às vezes, acha engraçado levar um copinho de dose. Talvez veja como uma recordação do bar, mas isso todo mês acaba impactando negativamente para a gente”, cita. “Tenho pequenos furtos desde um copinho de dose até o saleiro”. Rafaella diz que o valor de uma peça isolada pode parecer pequeno, mas o impacto aparece na repetição. “Um saleiro não faz diferença, mas imagina todo mês você ter que comprar copos, fazer reposições”. No Expedito, os furtos aumentam quando chegam itens novos. “A gente mudou nosso saleiro. Aí começam a sumir. Chega copo, desaparecem. Sempre que chega a novidade, some”, comenta. Segundo ela, o mesmo aconteceu com copos de uma cerveja específica e com copos usados para servir novos chopes. “É sempre quando eu tenho uma novidade que atrai os olhos”. A abordagem, no entanto, é rara. Mesmo quando o restaurante suspeita ou vê o cliente colocando algo na bolsa, diz Rafaella, a situação é delicada. “A gente sabe que levou o copo, mas eu não tenho muito o que fazer. Com as mãos atadas, literalmente”, afirma. “Não tenho como pedir para revistar uma pessoa lá dentro. Seria muito constrangedor”. Prejuízo silencioso Gabriel Pinheiro, líder executivo da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) São Paulo, diz que a entidade não tem um levantamento com números exatos sobre furtos de itens em restaurantes. Segundo ele, muitos estabelecimentos ainda registram essas perdas na contabilidade como “quebras operacionais”, pontua. “Mas é um problema real que acontece no setor. O empresário investe alto em louças e copos exclusivos para criar uma experiência única, e acaba arcando com esse prejuízo silencioso. É um gargalo que, quando ocorre, afeta o pequeno bistrô à alta gastronomia”, afirma. De acordo com Pinheiro, tudo o que tem valor estético agregado corre risco. Entre os alvos principais, ele cita canecas de cobre usadas em drinks como Moscow Mule, taças de cristal e facas de corte especial. Na decoração, o banheiro costuma ser um ponto crítico, com sumiço de saboneteiras de vidro e pequenos enfeites. Para ele, tratar o furto como perda menor é um erro. “Existe uma cultura infeliz de normalizar o que chamam de ‘furto fofo’, aquela ideia de que levar uma caneca bonitinha ou um potinho de cerâmica é apenas uma ‘lembrancinha’ inofensiva.” Pinheiro afirma que o setor trabalha com margens de lucro líquido apertadas, na casa dos 8% a 12%. “Se o cliente leva na bolsa uma faca premium de R$ 60, ele não fez um ‘furto fofo’, ele anulou completamente o lucro daquela mesa e deu prejuízo direto ao caixa do restaurante”, exemplifica. A orientação da Abrasel SP é evitar confronto direto e adotar medidas operacionais. Entre elas, estão treinamento da equipe, recolhimento rápido de itens mais caros após o uso, controle de estoque e câmeras para identificar falhas no atendimento. “O garçom deve ser instruído a fazer o recolhimento da mesa de forma muito ágil. Facas pesadas e canecas de cobre devem ser retirados imediatamente após o uso, antes mesmo de a conta ser solicitada, eliminando a oportunidade”. O que diz a lei José Carlos Abissamra Filho, advogado criminalista, doutor e mestre em direito penal e presidente da Comissão Especial de Advocacia Criminal da OAB-SP, afirma que a conduta pode ser enquadrada como furto, crime previsto no artigo 155 do Código Penal. “Subtrair coisa alheia móvel é furto. Você pega a coisa de alguém. Isso é furto”, define. O valor do item, porém, pode interferir na análise jurídica. Quando o objeto é de pequeno valor, entra em discussão o princípio da insignificância. “Quem leva um garfo, às vezes, está cometendo um crime de furto, mas se aplicaria ali a situação do crime que é insignificante”, afirma. “Por outro lado, para o dono do estabelecimento, o valor agregado de todos os bens poderia ser algo relevante”. Em termos simples, Abissamra diz que levar um objeto do restaurante pode ser considerado furto pela definição da lei, mas, dependendo do valor do item e do tamanho do prejuízo causado, a Justiça pode entender que o caso não tem gravidade suficiente para gerar punição criminal. “No caso do furto do saleiro, você tem uma conduta imoral, mas não necessariamente criminosa”, pontua. “Talvez a da manta, porque o valor do bem é um pouco maior, você teria talvez um crime de furto mesmo”. As câmeras de segurança ajudam a provar a conduta, mas não tornam o ato mais grave. “Só torna a produção de prova mais fácil, caso a dona do estabelecimento queira levar essa situação para a delegacia de polícia”, observa. O advogado alerta que a abordagem do cliente é uma zona de risco. Segundo ele, pedir para ver bolsa ou mochila é problemático, porque o dono do restaurante não é agente público e pode invadir a privacidade do consumidor. Segundo Abissamra, o dono do restaurante pode até dar voz de prisão, como qualquer pessoa, mas não pode obrigar o cliente a ficar no local à força. Essa coerção cabe às forças policiais. Abissamra também diz que restaurantes não devem divulgar imagens de clientes nas redes sociais ou em grupos de outros estabelecimentos. “Não pode, porque viola o direito de imagem daquelas pessoas.” Para ele, a orientação exige cautela porque envolve patrimônio, liberdade, intimidade, devido processo legal e direito de imagem. “É uma linha muito tênue. O processo serve para aferir de fato a culpa da pessoa. A pessoa não pode ser penalizada antes disso”, resume. Entre o prejuízo, o constrangimento e o risco jurídico, os restaurantes acabam buscando soluções internas para reduzir perdas. Para Lauretti, não há como tratar o furto como simples quebra operacional. “Cair um prato, cair uma taça, tudo bem. Está no jogo”, afirma. “É bem diferente de cair dentro da bolsa de alguém”. Revistas Newsletter",
  "title": "10 mil guardanapos, cinzeiros e até luminárias roubadas: chefs relatam furtos em restaurantes; ‘Não tem o que fazer'"
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