{
"$type": "site.standard.document",
"bskyPostRef": {
"cid": "bafyreid4vza3ncctrtoolh5oe336zygsl6kyzfahvukbrfci32s2n3ojna",
"uri": "at://did:plc:capsfdhb3b25j5l3qgspz2ht/app.bsky.feed.post/3mndek2eutjf2"
},
"coverImage": {
"$type": "blob",
"ref": {
"$link": "bafkreifm3xr2zqmizxx5zwsmlv4azbgcrbxqpg6uouzeq2d5yjqntxzxrq"
},
"mimeType": "image/jpeg",
"size": 784585
},
"path": "/artes-e-cultura/blog/2026/06/half-man-nova-serie-do-criador-de-bebe-rena-revela-homens-que-nao-sabem-depender-sem-dominar.ghtml",
"publishedAt": "2026-06-02T14:14:19.000Z",
"site": "https://gq.globo.com",
"tags": [
"gq"
],
"textContent": "\nHalf Man chegou ao streaming sem fazer concessões. Richard Gadd, o mesmo criador de Bebê Rena, escolheu desta vez a rota mais indigesta: seis episódios que percorrem trinta anos da relação entre Ruben (vivido por Gadd) e Niall (Jamie Bell), dois irmãos criados juntos na Escócia dos anos 80, unidos não pelo sangue, mas por um vínculo marcado pela violência, pelo desejo reprimido e por uma dependência que nenhum dos dois consegue nomear nem abandonar. A série termina como começa, com uma explosão, e o espectador sai exausto sem nenhuma catarse para se agarrar, o que é exatamente o ponto. Comparada a Bebê Rena, Half Man (disponível na HBO Max) é menos acessível e deliberadamente mais fria. Onde a série anterior encontrava humanidade na vulnerabilidade autobiográfica, esta escolhe o distanciamento da ficção assumida, mais simbólica, mais circular, mais disposta a punir o espectador do que a reconfortá-lo. Os personagens erram, se afastam, retornam e reincidem num padrão que a série recusa interromper com qualquer gesto redentor, porque a redenção seria mentira, e Gadd parece mais interessado em mostrar como dois homens se destroem do que em oferecer qualquer saída para o que filmou. O que ele acompanha ao longo de trinta anos é a forma como dois homens constroem suas identidades inteiramente em função um do outro, em um vínculo que oscila entre fascínio e humilhação sem nunca encontrar um terceiro lugar onde possam simplesmente existir sem se destruir. Ruben domina, intimida, seduz e infantiliza. Niall permanece esmagado entre o medo e algo que se parece com amor, mas que a série recusa chamar assim. Décadas passam e o padrão se repete, porque nenhum dos dois aprendeu outra forma de se relacionar, e aprender exigiria admitir que precisam de ajuda, que é exatamente o que a masculinidade que os formou tornou impensável. A psicanálise tem um nome para o que a série dramatiza sem precisar explicá-lo: compulsão à repetição. Freud usou essa expressão para descrever a tendência de voltarmos, sem perceber, aos mesmos tipos de relação, conflitos e sofrimentos. Não porque eles nos façam felizes, mas porque algo neles continua nos convocando. Niall volta para Ruben décadas depois porque aquele vínculo ajudou a moldar quem ele é. Sem ele, sobra uma sensação de vazio que ele confunde com saudade. Jamie Bell e Richard Gadd em Half Man Divulgação / Warner Bros. Há também uma segunda camada na história: sentimentos que os personagens nunca conseguem transformar em palavras. A relação entre Ruben e Niall carrega uma tensão que nunca se resolve em palavras nem em atos declarados, e essa suspensão não é ambiguidade narrativa, é retrato de como o desejo reprimido pode se transformar em violência quando não encontra espaço para existir de outra forma. Revistas Newsletter Na Escócia dos anos 80, dois adolescentes tinham poucas possibilidades de nomear aquilo que sentiam. A psicanálise insiste numa ideia simples: aquilo que não conseguimos reconhecer em nós mesmos não desaparece apenas porque tentamos ignorá-lo. Quase sempre retorna por outros caminhos, muitas vezes mais destrutivos do que o original. A série sugere algo incômodo, e que a psicanálise leva muito a sério: a violência masculina raramente nasce do excesso, mas da falta, da incapacidade de suportar a própria vulnerabilidade sem transformá-la em agressão, de pedir sem humilhar, de depender sem dominar. Gadd constrói personagens que não sabem existir sem controlar alguém, e o aspecto mais perturbador da série não está nas cenas mais explícitas, mas nos momentos em que se percebe que nenhum deles escolheu ser assim. Ambos cresceram dentro de uma ideia de masculinidade que aprenderam muito cedo, antes mesmo de terem palavras para questioná-la. Half Man não responde o que é ser um homem de verdade, e faz bem em não responder, porque qualquer série que fingisse resolvê-la estaria mentindo sobre a mesma coisa que os dois personagens mentem para si mesmos durante trinta anos.",
"title": "\"Half Man\": nova série do criador de \"Bebê Rena\" revela homens que não sabem depender sem dominar"
}