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"textContent": "\nSeja bem-vindo a Balneário Camboriú, onde as nuvens se aproximam dos homens. Chamada de Dubai brasileira, a cidade que troca o deserto pelo Atlântico ganhou o apelido graças a seus imensos e luxuosos arranha-céus. Há pelo menos trinta empreendimentos com mais de 150 metros de altura por lá. Por enquanto, o mais alto é o Yachthouse, com duas torres de 294 metros - equivalentes a sete estátuas do Cristo Redentor - e unidades residenciais de 200 m², vendidas por valores entre R$ 7 milhões e R$ 17 milhões. Balneário, ou “BC”, é um município apertado. Tem o segundo menor território de Santa Catarina, 45 mil km², e 150 mil habitantes. Nos cálculos da prefeitura, o número de pessoas duplica, ou até triplica, durante a temporada de férias. Como seus arredores trazem áreas de Mata Atlântica e rios protegidos, a solução foi crescer para cima. As primeiras amostras de edifícios altos surgiram na década de 1950, porém foi a partir do fim dos anos 90 que entrou em campo o chamado adensamento. Ajudou o fato de as regras municipais afrouxarem a altura máxima permitida para os prédios ao longo dos anos. Atualmente, um passeio pela Avenida Atlântica, a principal de Balneário Camboriú, com 6 quilômetros de extensão, mostra as ofertas mais chamativas do mercado imobiliário da cidade. Em maio do ano passado, uma das principais incorporadoras locais, a FG Empreendimentos, convidou um grupo de super-ricos para apresentar sua nova façanha: a Senna Tower, uma torre de 550 metros de altura (quase o dobro do recordista atual) e unidades de 250 a 300 m², avaliadas a partir de R$ 28 milhões. O empreendimento busca superar um feito da própria empresa, que assina a One Tower, o segundo prédio residencial mais alto de Balneário Camboriú, com 290 metros de altura, localizado na Avenida Atlântica e finalizado em 2022. Da Senna Tower espere alto luxo. Alguns moradores não precisarão sequer se despedir de seu veículo na garagem. Certas plantas contarão com um elevador privativo para estacionar o carro na sala de casa - novidade que ficou famosa em um prédio de Goiânia em 2024. Até o estande de vendas da torre foi criado para impressionar. Uma maquete de 4 metros de altura aparece junto a uma exposição com itens do próprio Ayrton Senna, cuja família negociou os direitos de uso do nome e pôs uma sobrinha arquiteta à frente do projeto. O condomínio contará ainda com uma pista de kart no térreo. Já os últimos andares exibirão “mansões suspensas”, que terão área de 500 m² e serão leiloadas. Prevista para 2028, a iniciativa almeja o título de edifício residencial mais alto do mundo - hoje há o nova-iorquino Central Park Tower, com 472 metros. Os corretores entraram em polvorosa com o anúncio. Segundo profissionais ouvidos pela GQ Brasil, a corretagem chega a R$ 2 milhões nesses prédios. Para convencer os possíveis compradores, parte de uma lista VIP, as imobiliárias investem em passeios de helicóptero e lancha, hospedagem e transfer do aeroporto (alguns chegam em jatinhos próprios). A maior parte da clientela desses empreendimentos está associada ao agronegócio de estados como Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, assim como sobrenomes poderosos do ramo da indústria catarinense. Balneário Camboriú: terra de gigantes Arte: Victor Amirabile Trata-se de uma realidade diferente para um município que, até a década de 1920, era habitado por famílias de agricultores e pescadores. Hoje, entre os investidores do multimilionário mercado imobiliário local aparecem nomes como Cristiano Ronaldo, Neymar e Luan Santana. Em 2025, na esquina das avenidas Brasil e Alvin Bauer, criou-se até uma versão da Times Square, de NY, com telões luminosos e publicidades. “Tem muita coisa brega aqui”, avalia Juliano Custódio, morador da cidade e CEO da EQI Investimentos, corretora que calcula cuidar de uma carteira de R$ 50 bilhões em investimentos de 80 mil clientes. Ele afirma que, apesar de venderem a cidade como tranquila, de ar exclusivo, Balneário exibe os problemas típicos das metrópoles durante o verão, com engarrafamentos, restaurantes lotados e barulho. “Muita gente compra um apartamento desses só para fazer um churrasco com os amigos, como um resort de férias”, afirma. “Aí, chegam aqui e querem luxo: andar de Lamborghini, Ferrari, ir a loja de grife…” No ano passado, o município, cheio de concessionárias de veículos de ponta, ganhou sua primeira loja da Dolce&Gabbana. Na toada das grifes, um prédio em desenvolvimento, de 270 metros, da construtora Embraed, levará a assinatura da Armani/Casa. Os edifícios altíssimos não chancelam uma exclusividade de BC no Brasil. São Paulo, por exemplo, se destaca com o Figueiras, o mais alto da capital desde 2021, com 168 metros de altura, instalado no Tatuapé. Em 2026, ele deverá ser ultrapassado pelo Alto das Nações, com 219 metros, em Santo Amaro. Mas ambos são fichinhas perto dos 550 metros de Senna Tower. Dubai também surgiu como uma vila de pescadores e polo de comércio marítimo no Golfo Pérsico, onde nos anos 60 se descobriu o valioso petróleo. Com o dinheiro vindo do combustível fóssil, os árabes escolheram usar a arquitetura e a engenharia como demonstração de seu poder financeiro e atrativo turístico. Em 2010, abriu as portas o Burj Khalifa, o maior prédio do mundo, com 828 metros e investimento de US$ 1,5 bilhão. Não à toa, um dos membros da família Graciola, a responsável pelo projeto Senna Tower, viajou doze vezes a Dubai para reunir inspirações. Como nem todo mundo com dinheiro se encanta por esse tipo de opulência e verticalização extrema, o mercado imobiliário local tem apostado no lema “é preciso furar a bolha”, a fim de expandir seu público. Para a urbanista e psicanalista Joice Berth, tem vez um embate entre novos e eufóricos ricos e aqueles com décadas de contas cheias. “O morador de uma cobertura em Balneário Camboriú tenta afirmar o lugar de quem chegou a uma posição confortável. Trata-se de uma visão meritocrática mais recente, no caso representada por um alto patamar”, diz. “É como se quem estivesse lá no alto dissesse aos de baixo: você não é um dos nossos.” Segundo Joice, essa dinâmica se pauta na disputa histórica de espaço entre grupos da elite. Enquanto Nova York ergueu monumentos em art déco entre as décadas de 1920 e 1930, a exemplo do Empire State, com seus quase 400 metros de altura, no Brasil, ricos como o empresário italiano Giuseppe Martinelli tentaram exalar o mesmo poderio de Manhattan na América do Sul. Assim, ele construiu o Edifício Martinelli, inaugurado em 1929 no centro da crescente São Paulo, que atingiu 105 metros de altura, então o mais alto do país. Hoje, parte dos abastados de famílias tradicionais prefere adotar tendências no estilo do quiet luxury, que valoriza a discrição e o minimalismo. O espaço, então, ficou vago para endinheirados recentes mostrarem a que vieram. “São os novos ricos que atualmente comandam a produção arquitetônica”, afirma Joice. Balneário Camboriú: terra de gigantes Arte: Victor Amirabile Havia um público que não estava sendo atendido, que passou da fase da ostentação, para o qual o luxo fala mais baixo.” Em meio ao requinte dos arranha-céus de Balneário Camboriú, nem tudo são flores. Os moradores enfrentam vibrações em sua residência devido à grande altura e aos ventos fortes. Há vídeos de condôminos, durante tempestades, que mostram forte barulho e oscilações que chegam a criar ondas nas piscinas particulares dos apartamentos. Além disso, as edificações causam um sério problema municipal: o sombreamento na praia. Como costumam ficar na orla, as imensas construções barram parte do sol dos banhistas. Para amenizar o problema, a prefeitura, em 2021, alargou a faixa de areia da Praia Central, na Avenida Atlântica, com quase 6 quilômetros de extensão, de 25 para 70 metros. O projeto, com investimento de quase R$ 70 milhões, causou controvérsias principalmente em relação à questão de preservação ambiental e demandou renovações em 2023. Em nota, a FG, proprietária da Senna Tower, afirma tê-la projetado num ponto “com menor incidência de sombras” devido à orientação geográfica feita a partir de simulações da prefeitura. Como contraponto a essa corrida pelo céu, outro discurso começa a ganhar espaço na região. Mais especificamente na Praia Brava, no município vizinho de Itajaí. Lá, em vez dos gigantes chamativos, a aposta se dá em prédios sofisticados e baixos. O principal destaque fica a cargo do Tempo by Muze. “O verdadeiro luxo não está necessariamente na altura ou na imponência”, acredita Arthur Fischer Neto, um dos sócios do empreendimento. “Ele está na exclusividade e na qualidade do projeto.” Representantes do condomínio desembarcaram em São Paulo, em setembro de 2025, para tentar furar a tal bolha. “Havia um público que não estava sendo atendido, que passou da fase da ostentação, para o qual o luxo fala mais baixo. Esse público não gosta de fogos”, afirma Neto. O plano diretor de Itajaí não permite prédios além de oito andares e não se pode construir antes de 50 metros de recuo da praia, pela questão do sombreamento da areia. “Nem todo mundo quer morar no octogésimo andar”, diz Neto. “Nem quer barulho ou carro com som alto na rua.” Uma unidade do tradicional hotel Emiliano - que ocupa a Rua Oscar Freire, nos Jardins, em São Paulo, e a Avenida Atlântica, em Copacabana, no Rio — fará parte do complexo. A hospedagem envolverá um investimento de R$ 250 milhões, com 48 acomodações e diárias médias entre R$ 4,5 mil e R$ 5 mil. Com início de obras previsto para este ano, o Tempo contará ainda com sete torres de sete andares para 83 residências de 400 m² a 800 m² e coberturas de até 1.200 m², assinadas pelo escritório Foster + Partners, do renomado arquiteto britânico Norman Foster. Os apartamentos deverão custar mais de R$ 100 milhões. A aposta, agora, é em outra linguagem. “Quando você traz um Emiliano, um Norman Foster, muda o olhar”, finaliza Neto.",
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