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"textContent": "\nUm dos meus lugares favoritos no mundo é a famosa Riviera Francesa, também chamada corriqueiramente de Côte d’Azur. Existe uma luz aqui que aparece no final da tarde, cai oblíqua sobre o Mediterrâneo e transforma o azul em violeta. Faz com que qualquer pessoa, bem ou mal vestida, pareça estar no frame de um filme do Alain Resnais. Não é à toa que Matisse se instalou em Nice, que Picasso escolheu Antibes, que Chagall passou décadas em Saint-Paul-de-Vence. A Riviera seduz a todos, ou quase. Mas a Côte d'Azur que conhecemos hoje, aquela de iates e festas, não nasceu assim. No século 19 era um destino medicinal de inverno, frequentado por famílias imperiais russas e inglesas que vinham para o sol como quem vai ao médico. O verão era considerado impróprio: calor demasiado, mosquitos e gente demais. Até hoje, eu mesmo prefiro ir na primavera ou quando o outono está chegando. Muito mais chic! Sua transformação foi obra, em parte, de dois americanos que a história quase esqueceu: Gerald e Sarah Murphy. Expatriados na Paris dos anos 20, amigos de Cole Porter, Picasso, Hemingway e Fitzgerald, o casal chegou a Cap d'Antibes em uma tarde de verão e encontrou uma península vazia e dourada. Compraram uma villa, chamaram os amigos, e “inventaram” o lugar mais glamuroso possível. Em 1931, quando a primeira temporada oficial de verão foi inaugurada na Riviera, Chanel lançava sua primeira coleção de praia. Não foi coincidência. O que se construiu desde então é um conjunto de hotéis que são grandes protagonistas. Cada um com seu temperamento, sua mitologia, seus fantasmas ilustres. Percorri dez deles recentemente e volto com a certeza de que a Riviera ainda tem o que oferecer, além do óbvio de sempre. Vamos lá. The Maybourne Riviera Divulgação The Maybourne Riviera, Roquebrune-Cap-Martin Roquebrune-Cap-Martin é um segredo que a Riviera guarda entre a pequena cidade de Menton e Mônaco. Uma villa que nasceu em uma rocha, que nos anos 50 abrigou um hotel chamado Vista Palace, e que depois ficou vazio por anos. O grupo Maybourne, também dono do Claridge's e do The Connaught em Londres, o transformou num objeto arquitetônico que emerge da falésia majestosamente. Jean-Michel Wilmotte assinou a arquitetura, um marco. Da suíte panorâmica no décimo primeiro andar, e do terraço do bar e restaurante, três países são visíveis ao mesmo tempo: França, Mônaco, Itália. O Mediterrâneo se estende até onde a vista alcança, e quando está aqui a sensação é de dominar, no bom sentido, a região. Cap-Eden-Roc Divulgação Cap-Eden-Roc, Cap d'Antibes Foi construído em 1870 por Hippolyte de Villemessant, fundador do jornal cotidiano francês Le Figaro, que imaginou uma villa para escritores em busca de inspiração. O plano fracassou: os escritores não apareciam, ou não pagavam as contas, e a villa virou hotel. O Eden-Roc fica na ponta sul de Cap d'Antibes, cercado por pinheiros, e sua piscina de água salgada foi dinamitada na rocha em 1914. É uma das imagens mais replicadas da Riviera: a água esverdeada, a pedra cinza, o Mediterrâneo ao fundo. F. Scott Fitzgerald transformou o hotel no cenário central do romance Suave é a Noite. Sean Connery era presença regular, Roger Moore morava nas redondezas e vinha jogar tênis todos os dias. Cada geração deixou aqui sua assinatura. Grand-Hôtel du Cap-Ferrat Four Seasons Divulgação Grand-Hôtel du Cap-Ferrat Four Seasons, Saint-Jean-Cap-Ferrat A península de Saint-Jean-Cap-Ferrat é um dos metros quadrados de terra mais caros do mundo. O Grand-Hôtel existe aqui desde 1908, inaugurado num momento em que a Riviera ainda era território de aristocracia europeia. Coco Chanel e Jean Cocteau vinham tomar chá na varanda nos primeiros anos. Winston Churchill pintava aquarelas no jardim. Charlie Chaplin, Elizabeth Taylor, Frank Sinatra, Paul McCartney: o livro de registros é uma enciclopédia do século 20 em 72 quartos. O detalhe que mais gosto de contar é o de Pierre Gruneberg, o instrutor de natação da piscina olímpica de água salgada que deu aulas a Picasso, aos filhos dos Kennedy, de Paul McCartney, de Ralph Lauren e de Bono. Há algo inegavelmente cinematográfico na ideia de um único homem que ensinou a flutuar o século inteiro. Hôtel de Paris Monte-Carlo Divulgação Hôtel de Paris Monte-Carlo, Mônaco Inaugurado em 1864, o Hôtel de Paris recebeu o jet set antes mesmo de os jatos existirem. Frank Sinatra, Ella Fitzgerald, Elton John, Nat King Cole: a lista de nomes é uma prova de que Mônaco sempre foi, antes de tudo, um teatro. O principado tem menos de dois quilômetros quadrados, menor que o Central Park de Nova York, e o hotel é a cena central desse espetáculo há 160 anos. A adega foi fundada em 1874 por Marie Blanc e construída por quase cem trabalhadores ao longo de 18 meses. Grace Kelly comemorou o vigésimo aniversário de casamento com o Príncipe Rainier III nesses subterrâneos. A Suite Princess Grace, com quase 900 metros quadrados em dois andares, guarda fotografias e objetos pessoais dela, incluindo seus poemas favoritos. O restaurante Le Louis XV, de Alain Ducasse, serve uma experiência para ficar para a vida. La Ponche Divulgação Hôtel La Ponche, Saint-Tropez Em 1938, o La Ponche era um boteco de pescadores com três quartos num beco de Saint-Tropez. Os pais de Simone Duckstein serviam café e torradas e os homens do porto atracavam as barquinhas no pontão logo abaixo. Então chegaram os anos 50, Brigitte Bardot filmou E Deus Criou a Mulher na praia ali embaixo, Saint-Tropez virou o lugar mais cobiçado da França, e o La Ponche se tornou, quase por acidente, o esconderijo da elite intelectual parisiense. Foi reformado pelo designer Fabrizio Casiraghi, que soube manter o espírito sem modificá-lo. São 21 quartos, uma cozinha mediterrânea com terraço sobre o mar, e um bar onde os coquetéis têm nomes como Romy Schneider's Grand Piscine e Brigitte Bardot's Love Me Not. É o único hotel da Riviera que parece não precisar de mais nada além do que já tem. Les Roches Divulgação Hôtel Les Roches, Le Lavandou Le Lavandou fica a oeste de Saint-Tropez, na direção das Ilhas de Ouro, em um trecho de costa que os pós-impressionistas percorreram com seus cavaletes. Signac, Seurat, Cross, Van Rysselberghe: todos pintaram aqui, atraídos por uma luz diferente das demais. Les Roches foi construído nos anos 30 na enseada de Aiguebelle, entre rochas calcárias e pinheiros, sobre o mar. Thomas Mann chegou aqui em 1933, fugindo da Alemanha que subia ao nazismo. O hotel reabriu em 2025 com o selo Relais & Châteaux, reformado pelo arquiteto Jean-Baptiste Pietri que devolveu ao lugar o minimalismo náutico dos anos 30: carvalho, terrazo, azul petróleo, 42 quartos todos virados para o mar. A cozinha ficou com o chef Antoine Gras, estrela Michelin, no restaurante L'Oursin. É o tipo de surpresa que a Riviera reserva para quem sai da Croisette. Château de la Chèvre d'Or Divulgação Château de la Chèvre d'Or, Èze Èze é um dos vilarejos mais dramáticos da região: uma aldeia medieval no alto de uma falésia entre Nice e Mônaco, a 430 metros acima do mar. Friedrich Nietzsche subiu e desceu essa trilha todos os dias durante uma temporada nos anos 1880 e foi nessas caminhadas sobre o vazio que escreveu parte de Assim Falou Zaratustra. Em 1953, um visionário chamado Robert Wolf se apaixonou pelas ruínas de um castelo do século 14 e transformou o lugar em um restaurante. A história que se conta com prazer em Èze é que foi Walt Disney quem o convenceu a comprar as casas ao redor e transformar tudo num hotel. Verdade ou lenda, o resultado é um dos endereços mais peculiares da Côte d'Azur: 45 quartos espalhados por casas medievais interligadas, sem simetria possível. A Chèvre d'Or não é um hotel para quem tem pressa de chegar à praia, é para quem prefere olhar de cima. O hotel Martinez Divulgação Hôtel Martinez, Cannes O Martinez abriu em 1929 na época em que o Art Déco era a linguagem arquitetônica da ambição, e o edifício nunca largou esse humor. As sacadas de ferro sobre a Croisette, a escadaria de veludo azul, a fachada em colmeia: é um hotel que parece saber que está sendo fotografado o tempo todo, e sabemos que Cannes exige isso. Grace Kelly, o Duque e a Duquesa de Windsor, Cary Grant: o Martinez era frequentado pela nata antes mesmo de o Festival de Cinema existir. Depois que o festival começou, em 1946, o hotel virou uma das cenas mais importantes daquelas duas semanas de maio. Desde os anos 90, recebe o jantar oficial do júri. Um monumento vivo, vivíssimo. Le Negresco Divulgação Le Negresco, Nice Henri Negrescu nasceu em Bucareste em 1870, filho de estalajadeiro, e decidiu cedo que serviria apenas os mais ricos do mundo. Veio para Paris e um dia resolveu construir o próprio palácio. Chamou Édouard-Jean Niermans, o arquiteto do Moulin Rouge, que pediu uma cúpula rosada sobre a \"Promenade des Anglais\" e inaugurou em 1913. Então começou a Primeira Guerra. O Negresco foi requisitado como hospital militar e Henri morreu em Paris em 1920, sem ver o hotel florescer. Foi Jeanne Augier, que assumiu o estabelecimento em 1957 com o marido Paul, quem transformou o Negresco no que é hoje: um museu vivo da arte francesa, com mais de seis mil obras, uma cúpula de vidro projetada por Gustave Eiffel no Salon Royal, e quartos onde cada corredor une vários séculos. É o único grande hotel da Riviera que pertence a uma família francesa e nunca precisou de uma bandeira internacional para se explicar. Isso, em 2026, é quase um ato político. Zannier Île de Bendor Divulgação Zannier Île de Bendor, Bandol A ilha de Bendor tem sete hectares, fica a 300 metros da costa de Bandol e foi comprada em 1950 por Paul Ricard, criador da famosa marca de álcool Pastis. Ricard era também um mecenas que acreditava que a beleza de um lugar muda o humor das pessoas. Transformou aquela pedra rochosa batida pelo vento em uma utopia mediterrânea com porto, praça, ateliers, regatas e festas que duravam dias. Revistas Newsletter Por décadas foi o endereço mais improvável e mais desejado da Riviera, a sete minutos de barco de Bandol. Em 2026, a família Ricard entregou a ilha ao grupo Zannier para um novo capítulo. Arnaud Zannier restaurou as construções originais e distribuiu 93 quartos por três casas com personalidades distintas: a Delos, que evoca o glamour dos anos 60, a Soukana, voltada para o bem-estar e o ritmo lento, e as cinco casas da Madrague, com jardins privativos à beira do porto. Sem carros, sem pontes e nove restaurantes para comer e beber. É um dos endereços mais falados e desejados dos últimos tempos na Rivieira Francesa. Charles Piriou na Riviera Francesa Tara Bernard Cada um desses hotéis chegou até aqui por razões diferentes. Alguns pela beleza do lugar, outros pela capacidade de um fundador em imaginar o que o prazer poderia ser, outros ainda pela acumulação de histórias que nenhum marketing seria capaz de inventar. O que os une é uma certa recusa à obviedade. A Riviera Francesa pode ser, e frequentemente é, um espetáculo de exibicionismo. Mas seus melhores hotéis sempre souberam que o luxo verdadeiro é outra coisa: é aquela luz de fim de tarde sobre o Mediterrâneo, um copo de rosé gelado, e a certeza de que você quer voltar. Eu amo estar aqui, e volto sempre. À bientôt.",
"title": "Os hotéis que inventaram a Riviera Francesa"
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