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Sem candidatos, Miss Gay acaba cancelado em Santo André: “Cadê esse público?”

GQ | Seu Guia de Moda Masculina, Cultura e Lifestyle [Unofficia… May 21, 2026
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As coroas estavam encomendadas, a chamada havia sido publicada e a 4ª edição do Miss Gay Santo André tinha data para acontecer, mas o concurso foi adiado para 2027 por um motivo inesperado: ninguém se inscreveu. Segundo Marcelo Gil, da ONG ABCDS, responsável pela organização, três ou quatro pessoas chegaram a pedir informações, mas nenhuma formalizou a participação. Uma pessoa iniciou o processo, mas não concluiu a inscrição nem pagou a taxa. Na prática, afirma ele, o concurso terminou sem nenhuma candidatura efetivada. A expectativa da entidade era receber ao menos oito inscrições. Cada candidatura custaria R$ 50, valor abaixo da média de concursos semelhantes, cujo ingresso na disputa costuma girar em torno de R$ 150, segundo Gil. A organização também arcaria com a inscrição das representantes de Santo André e São Bernardo do Campo no Miss Gay Estadual. A edição previa quatro títulos: Miss Gay Santo André, Miss Gay São Bernardo do Campo, Princesa Gay Santo André e Princesa Gay São Bernardo do Campo. Também haveria coroas, faixas e prêmios de R$ 500 para as duas misses. Para a representante de Santo André, estava previsto ainda um vestido de uma estilista. Outras edições do concurso Reprodução Parte desses detalhes, diz Gil, não chegou a ser anunciada porque a ONG esperava uma demanda maior. Com o adiamento, coroas, faixas e premiações ficaram reservadas para 2027. “A gente se surpreendeu”, comenta. “Teve divulgação e a inscrição era de valor bem baixo.” A ausência de candidatos transformou o cancelamento em discussão sobre algo maior: concursos de beleza LGBTQIA+ ainda fazem sentido para as novas gerações? Para a ONG, o episódio indica um afastamento da população LGBTQIA+ dos espaços presenciais de convivência, performance e sociabilidade. Nos comentários da publicação, porém, parte do público fez outra leitura: talvez o problema esteja no próprio formato. Um concurso com história no ABC Esta seria a quarta edição do Miss Gay Santo André. As três primeiras ocorreram nos anos 2000 e tiveram desdobramentos em etapas estaduais e nacionais, incluindo disputas ligadas ao Miss Gay Brasil, em Juiz de Fora, Minas Gerais. O dirigente afirma que candidatas de Santo André chegaram a ficar entre as dez colocadas em competições nacionais. Depois, o projeto foi interrompido por causa dos custos de manutenção, deslocamento e participação. A retomada, no entanto, ocorreu em outro contexto. Para Gil, a dificuldade atual não se resume à divulgação do evento. Ele associa a falta de inscrições a uma mudança mais ampla na relação de parte da população LGBTQIA+ com espaços coletivos. “Cadê esse público da região?”, questiona. “Hoje a gente fica preocupado em realizar para ver se vai ter gente.” “Cafona e sem sentido” A publicação que anunciou o cancelamento virou espaço de debate sobre o sentido do Miss Gay. Comentários na postagem questionaram a permanência de concursos de beleza em 2026 e associaram o formato a padrões considerados ultrapassados. “Concurso de miss é uma coisa meio cafona e sem sentido”, escreveu internauta. Outra pessoa afirmou que a discussão deveria passar por uma pergunta anterior: “O que ou a quem um concurso de beleza beneficia?”. Também houve críticas à exigência de um padrão corporal como referência de beleza. “A nova geração não quer ser reconhecida pela estética. Isso é muito ultrapassado”, apontou um dos comentários. Outra reação defende que um show de talentos ou concursos de maquiagem, dança e costura poderiam agregar mais à comunidade do que uma disputa de miss, “que no fim a gente sabe que vence a mais padrão”. As críticas contrastam com a visão de Gil, para quem o Miss Gay não deve ser reduzido à beleza. Ele afirma que o concurso faz parte de uma tradição ligada ao transformismo, ao palco, à performance e à ocupação pública por pessoas LGBTQIA+. “Não é que está fora de moda. O que está fora de moda é sair do virtual”, afirma. “A gente não pode jamais perder a cultura da diversidade”, defende. Do palco para as redes Na avaliação de Gil, redes sociais e aplicativos de relacionamento mudaram a forma de convivência entre pessoas LGBTQIA+, especialmente entre os mais jovens. “As pessoas estão vivendo muito mais reclusas, em aplicativos”, observa. “É muito fácil ficar atrás de um celular observando e paquerando do que ir para a realidade.” Revistas Newsletter Ele também relaciona o caso à perda de espaços LGBTQIA+ no Grande ABC. Segundo Gil, a região já teve mais baladas, festas e pontos de encontro voltados ao público, mas esse circuito encolheu. A dificuldade de atrair público, afirma, afasta inclusive empresários interessados em investir em eventos presenciais. O dirigente cita ainda queda de público na Parada do Orgulho LGBTQIA+ de Santo André em 2025 e diz que a continuidade do evento exige atenção. Entre tradição e mudança O cancelamento expôs uma disputa de sentidos. Para a ONG, o Miss Gay é parte de uma memória coletiva da cultura LGBTQIA+, vinculada ao transformismo, às drags, às transformistas e à possibilidade de ocupar palcos em um período em que a visibilidade era mais restrita. Para parte do público que reagiu ao post, no entanto, o concurso parece menos conectado às discussões atuais sobre corpo, estética e reconhecimento. Gil reconhece que há críticas ao modelo, mas diz que a baixa participação também aparece em outras iniciativas. “Você ouve ataque de que está demodê, que tem que criar outras metodologias, mas, se criam, eles também não participam.” Até 2027, a ONG pretende reformular a mobilização. A estratégia, segundo ele, passa por vídeos nas redes sociais, divulgação mais direta e busca ativa de pessoas interessadas em participar. “Tem que sair da casinha, botar a cara no sol”, diz. “Tem que voltar com Miss Gay, tem que voltar com participação real".

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