{
  "$type": "site.standard.document",
  "bskyPostRef": {
    "cid": "bafyreify33iwhrgqfoe55psprfmwpudykiaei4ityehcakvd34fcozvmyu",
    "uri": "at://did:plc:capsfdhb3b25j5l3qgspz2ht/app.bsky.feed.post/3mmdbvw4lj4u2"
  },
  "coverImage": {
    "$type": "blob",
    "ref": {
      "$link": "bafkreidw3ai3ocmcgisvvjcse4javqebjep6kkaclzw5lrdvx7ydrmkt6a"
    },
    "mimeType": "image/jpeg",
    "size": 1206928
  },
  "path": "/lifestyle/noticia/2026/05/alfaiate-de-30-anos-so-veste-roupas-do-seculo-19-inclusive-na-academia-mas-nao-quero-monarquia.ghtml",
  "publishedAt": "2026-05-20T14:09:40.000Z",
  "site": "https://gq.globo.com",
  "tags": [
    "gq"
  ],
  "textContent": "\nHá três anos, quando a ambulância chegou, Paulo Samu estava vestido como um homem do começo do século 19: calças azuis listradas, chemise (uma peça considerada \"ancestral\" da camiseta no guarda-roupa masculino), colete preto e um casaco azul bebê. Havia caído da sacada de casa, em Gramado, na Serra Gaúcha, e quebrado a perna. A cena poderia ser apenas de susto, dor e atendimento médico, mas a roupa apareceu antes do diagnóstico. “Meu Deus, acho que você é a pessoa mais elegante que essa ambulância já viu”, ouviu de um socorrista. A frase resume parte do estranhamento que acompanha Paulo, 32, no cotidiano. Ele vai à rua, ao mercado, à academia, ao hospital e até à fisioterapia vestido com peças inspiradas em trajes históricos. Há cerca de quatro anos, diz não usar roupas contemporâneas, com exceção de momentos pontuais, como o período em que precisou adaptar a vestimenta para fazer exercícios de recuperação. A transição, no entanto, não aconteceu de uma vez. Começou há cerca de seis anos, ainda em São Paulo, quando passou a misturar camisas de manga bufante com jeans e jaquetas. Aos poucos, as peças modernas foram saindo do armário. Hoje, restam poucas exceções. “É só botar a roupa que você quer e sair. Você não está matando ninguém, você não está agredindo ninguém”. Paulo na academia com os itens históricos Reprodução Guarda-roupa histórico Paulo nasceu em São Paulo e viveu parte da infância em Vinhedo, no interior paulista, antes de voltar à capital. Há quase três anos, mudou para Gramado, no Rio Grande do Sul, onde passou a levar uma vida mais próxima do interior; “Do meio do mato”, como define. A relação com a criatividade vem de longe. Quando criança, desenhava, pintava, montava objetos, mexia com biscuit, massinha e Lego. Também cortava roupas da mãe para fazer fantoches e brinquedos. Seu lema na época? “Se eu não podia ter de uma forma monetária, como que eu faço para ter de uma forma criativa?” Na hora de escolher uma faculdade, pensou primeiro em artes. O medo da instabilidade da profissão, somado a conversas com amigos artistas do pai, fez com que repensasse. A moda apareceu por sugestão de uma amiga, que percebeu seu interesse por roupas, customização e costura. Na faculdade, diz ter mergulhado no curso. Chegava cedo, ficava até tarde, frequentava aulas de outras turmas e passava horas na biblioteca. Ali também conheceu o crochê, técnica com a qual trabalhou por quase dez anos. Depois, uma tendinite o obrigou a rever caminhos. Vieram o cosplay, as roupas sob encomenda, os eventos medievais e, na pandemia de Covid-19, a costura histórica. Paulo Samu se formou em moda e alimentou interesse histórico Ivny Coura/Divulgação O passado como técnica, não como saudade O interesse pelo começo do século 19 nasceu do contato com referências estrangeiras de outras pessoas que pesquisavam e usavam trajes históricos no cotidiano. A partir daí, Paulo passou a estudar modelagens, tecidos, técnicas manuais e modos de construção das roupas entre 1800 e 1830. Para ele, costura histórica não é fantasia nem simples reprodução estética. “É um trabalho de pesquisa sobre como as peças eram feitas, quais materiais eram usados e que lógica orientava cada camada. A roupa, nesse sentido, carrega informação sobre corpo, clima, classe social, higiene e circulação pública”, explica. Na entrevista com a GQ Brasil, Paulo usava as peças de casa: uma chemise, uma cravat, uma peça de flanela por cima, um banyan ou quimão - espécie de robe com influências árabes e asiáticas - e um pequeno chapéu doméstico. “Era elegante o bastante para você receber as visitas, mas não elegante o bastante para você sair na rua e ser visto na rua”, diz. A distinção entre roupa íntima, doméstica, de trabalho e de saída é uma das chaves da pesquisa. No século 19, afirma Paulo, a roupa funcionava como um cartão de visita. Indicava classe, ocasião, ocupação e possibilidade de acesso a determinados espaços. Século passado, mas academia é todo dia No cotidiano, a roupa histórica cria situações inesperadas. Em São Paulo, onde ainda morava quando começou a mudar o guarda-roupa, Samu imaginava que chamaria mais atenção. A experiência foi menos dramática do que esperava. “As pessoas estão só seguindo a vida delas”, diz. “Você pode estar do jeito que for”. Em alguns lugares, como diante de uma obra ou em ambientes mais distantes do circuito da moda e da arte, a reação chegava em forma de estranhamento. Na maior parte das vezes, porém, a abordagem era movida por curiosidade. “Você é um personagem? É teatro?”, costuma ouvir. Em Gramado, onde vive há quase três anos, a leitura é outra. Por ser uma cidade turística, marcada por personagens de fábricas de chocolate e atrações temáticas, Paulo e o marido são frequentemente confundidos com funcionários fantasiados. Às vezes, alguém pede foto ou tenta puxá-los pelo braço. Os trajes também o acompanham na academia. Paulo diz usar peças inspiradas nas vestimentas de exercício do período, especialmente roupas de marinheiro, feitas com fibras naturais. Não corre, mas faz caminhadas e fortalecimento muscular. Para ele, algodão e linho podem ser mais confortáveis do que muitas roupas esportivas sintéticas. “Super funciona”, garante. Paulo critica a presença dominante de poliéster na moda contemporânea e a lógica de consumo acelerado. Segundo ele, a ideia de que as roupas antigas eram sempre desconfortáveis ignora a inteligência de materiais como o linho, que absorve umidade, seca bem e não retém odor com facilidade. “Quando eu estou de chemise, de calças e meias, tudo de algodão ou de linho, me sinto mais ventilado e confortável para fazer esses exercícios se comparado com tecido de plástico”, compara. “É a mesma coisa que você se envolver em plástico-filme para ir fazer exercício. Não faz sentido.” Paulo também faz parte de um coletivo que reúne interessados em pesquisa histórica Ivny Coura/Divulgação “Nasci na época certa” A escolha de vestir roupas antigas costuma provocar uma pergunta recorrente: Paulo gostaria de ter vivido no século 19? A resposta é direta: não. Casado com outro homem, também pesquisador e usuário de roupas históricas, ele faz questão de separar o interesse pelas técnicas e silhuetas do passado de qualquer nostalgia política. O casal fundou um coletivo de costura histórica que reúne pesquisadores de diferentes regiões do Brasil e adota o lema “roupas antigas em cabeças modernas”. Revistas Newsletter “Não, não, não. Nasci na época certa, estou tranquilo aqui”, rebate, ao comentar as mensagens de quem diz que ele teria nascido no período errado. A preocupação não é casual. Segundo Paulo, grupos ligados à recriação histórica podem atrair pessoas interessadas em monarquia, revisionismo ou idealização de períodos marcados por violência. “A gente não vai querer monarquia ou escravidão. Não faz sentido para a nossa realidade”, reforça. Samu possa com vestuário histórico Ivny Coura/Divulgação No caso brasileiro, a pesquisa sobre o século 19 carrega ainda o peso da escravidão. Paulo cita a dificuldade de estudar imagens do período em que roupas, gestos e cenas cotidianas aparecem lado a lado com pessoas escravizadas sendo punidas ou submetidas a condições brutais. Para ele, olhar para as técnicas do passado não significa apagar essa violência. “Gosto muito da estética, mas todo o resto é podre, sabe?” Uma comunidade em formação O que começou como pesquisa individual hoje se conecta a uma rede maior. Paulo diz que, ao lado do marido, encontrou pessoas de várias regiões do país interessadas em costura histórica — de São Paulo ao Acre, de Brasília ao Espírito Santo, de Minas Gerais ao Rio Grande do Sul. O grupo reúne interesses diversos. Há quem produza peças para bailes, museus, teatro, figurino, estudo acadêmico ou uso cotidiano. Neste ano, o coletivo organiza mais um encontro. A programação deve reunir jogos, concurso de trajes e palestras.",
  "title": "Alfaiate de 32 anos só veste roupas do século 19, inclusive na academia: “Mas não quero monarquia”"
}