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Mateus Solano fala sobre machismo, redes sociais e celulares no teatro: "Atrapalha o ator, prejudica todo mundo"

GQ | Seu Guia de Moda Masculina, Cultura e Lifestyle [Unofficia… May 15, 2026
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No elenco da série Juntas e Separadas, do Globoplay, o ator brasiliense Mateus Solano, 45, defende que homens escutem mais as mulheres e saiam de uma lógica que, segundo ele, ainda associa masculinidade à força e à disputa. “O debate contra violência doméstica tem se mostrado assustadoramente urgente”, diz Solano. “Parece que existe alguma coisa estrutural masculina para ser discutida, recolocada”. Para ele, a discussão exige que homens abandonem certos papéis aprendidos historicamente e que certas coisas não sejam vistas como de homem ou de mulher. “Deixar o lugar desse cara que 'tem que sair para caçar seu leão' porque vai ir pegar um carrinho de supermercado”, afirma. Em Juntas e Separadas, Solano vive o ex-marido da personagem vivida por Luciana Paes, uma das protagonistas da série que descobrem as dificuldades e belezas da vida solteira pós-40 anos. “Acho que é hora de escutar as mulheres. Dar espaço para o mundo ser um pouco mais feminino, um pouco menos bélico, um pouco menos ofensivo, um pouco menos resolvido no grito.” O ator passou recentemente por uma mudança na vida pessoal. Em setembro de 2025, Solano e a atriz Paula Braun anunciaram a separação após 17 anos juntos. Em comunicado publicado nas redes sociais, os dois afirmaram que a relação “se transformou” e disseram seguir preservando a parceria na criação dos filhos e em futuros projetos profissionais. Celular no teatro: não Além da série no streaming, Solano está em cartaz com O Figurante, espetáculo que já passou por algumas cidades do Brasil, além de temporada de dois meses em Portugal. De volta aos palcos paulistanos (em temporada que vai até 26 de julho), ele diz estar feliz com a recepção da peça, criada a partir de improvisações suas, em parceria com a atriz Isabel Teixeira e o diretor Miguel Thiré. “Saber que as pessoas se comovem, riem e pensam sobre os assuntos que são meus, que são importantes para mim e que estão na peça, é de uma realização danada”, afirma. Na avaliação do ator, O Figurante dialoga com o presente ao tratar da relação entre redes sociais, aparência e desconexão. “A gente inventou [as redes sociais] na ilusão de nos conectar, mas elas acabam nos separando, nos afastando não só uns dos outros, mas de nós mesmos”, comenta. “Não precisamos ser ou não ser, só queremos parecer ser”. A discussão ganhou outro peso depois que um vídeo de Solano retirando o celular de uma espectadora durante uma apresentação circulou nas redes sociais, em outubro passado. O ator lembra que reagiu “quase feliz” ao episódio, por considerar que abriu espaço para um debate mais amplo sobre o comportamento do público no teatro. “Falei: ‘Que bom, agora a gente vai furar a bolha e vamos falar sobre isso’”, afirma. “É uma questão que a gente vive todos os dias no teatro. As pessoas não conseguem ficar longe dos seus celulares”. Para Solano, o problema não se limita à falta de educação. Ele vê no uso constante do aparelho uma interferência direta na experiência teatral. “Você não vai conseguir levar o momento teatral para casa, porque isso acontece ali na hora, ele é efêmero, não pode ser captado”, diz. “Você atrapalha o ator, prejudica todo mundo que está em volta e a obra de arte que todo mundo ali pagou para assistir”, justifica. O ator confessa se reconhecer como alguém que usa o celular mais do que gostaria. “Me considero uma pessoa viciada, porque me pego muito tempo nele, muito mais tempo do que eu gostaria”, diz. Mas tenta criar períodos longe do aparelho. “Não só não sofro como comemoro. Falo: ‘Olha só que maravilha poder viver um pouquinho’”. Segundo Solano, o smartphone se tornou “uma arma” e “uma droga” ao mesmo tempo. “Ele é uma janela para tudo de bom, mas também para tudo de ruim. É feito e pensado, através dos algoritmos, para te deixar viciado”, afirma. “A ilusão que a gente tem é de que está tudo ali, mas a verdade é que está tudo fora dali. A vida acontece fora do celular”. A inteligência artificial assusta Ao falar sobre as novas configurações do trabalho do ator, Solano inclui a inteligência artificial entre suas preocupações. Ele critica a circulação contínua de imagens e trabalhos em plataformas sem remuneração proporcional ao tempo de exibição e diz ver com apreensão o uso de vozes e rostos por ferramentas digitais. “A gente tem agora essa inteligência artificial comprando para o resto da vida nossa voz, nossos rostos, sem nenhum controle, sem nenhum limite. É assustador”, observa. “Não sei o que esperar”. O ator teme um “atrofiamento do humano” diante da tecnologia. “Entendo que a inteligência artificial pode potencializar muita coisa, mas o que vejo, na grande maioria dos casos, é ela fazendo trabalhos que antes a gente fazia e, portanto, nos deixando desleixados, frouxos e dependentes dessa tecnologia”, pontua. “Tem uma galera que só consegue trabalhar assim e acaba não desenvolvendo as ferramentas criativas, porque tem uma inteligência artificial para fazer isso pela gente”. Nosso planeta Outra pauta recorrente para o ator é a ambiental. Solano comenta que sua relação com o tema vem da forma como foi criado. “Sempre começo dizendo que fui criado como filho da natureza, e não como dono dela”, lembra. Segundo ele, o engajamento ambiental se transformou também em práticas cotidianas. O ator cita compostagem, placa solar, carro híbrido, separação de lixo, redução do consumo de plástico e o hábito de sair com sacola e garrafa d’água. “As minhas ações começaram a se multiplicar, não só para inglês ver, mas na minha casa”, cita. “Também deixei de fazer muita coisa, no sentido de trabalhar em muitos comerciais para empresas que não têm o menor compromisso ambiental”. Ao comentar a polarização em torno de algumas pautas, o ator afirma que não se vê como uma pessoa polêmica. “Se eu minimamente me coloco a favor do todo, do coletivo, já é comunista”, lamenta. Longe do celular, Solano afirma que tem lido e estudado. Entre as leituras recentes, cita Ricardo III, de Shakespeare, que talvez se torne seu próximo projeto no teatro, além de Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez, e Sagarana, de Guimarães Rosa. “Qualquer assunto que me interessa, vou atrás de livros, de leitura”, diz. “Você entende uma coisa, puxa a outra”. Revistas Newsletter

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