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Como cartas de Pokémon se tornaram um mercado multimilionário; exemplar raro foi vendido por R$ 86 milhões

GQ | Seu Guia de Moda Masculina, Cultura e Lifestyle [Unofficia… May 14, 2026
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R$ 86 milhões. O norte-americano AJ Scaramucci, filho do financista Anthony Scaramucci, desembolsou esse exorbitante valor para comprar... uma carta colecionável de Pokémon. O arremate se deu em fevereiro, em um leilão realizado pela Goldin Auctions, depois que o influenciador digital Logan Paul topou se desfazer de seu raríssimo Pikachu Illustrator. Tudo supervisionado por um juiz do Guinness World Records, que definiu o lance como a transação mais cara da história de um cartão colecionável em um leilão. Logan havia comprado a carta em 2021, em Dubai, já por uma quantia alta: mais de US$ 5 milhões (aproximadamente R$ 27 milhões na cotação atual). Para protegê-la, ainda providenciou uma redoma de diamantes de US$ 75 mil (R$ 390 mil), que transformou em um colar e costumava ostentar em eventos por aí. No Brasil, um nome conhecido do mundo dos investimentos também começou a olhar para essa mina de ouro. O influenciador de finanças Thiago Nigro, o Primo Rico, recentemente adquiriu uma carta de Pokémon por R$ 4 milhões, além de ter produzido um vídeo de mais de uma hora para explicar a seus seguidores como o ramo funciona. Os dois casos são a ponta do iceberg de algo que começou como brincadeira de criança e se tornou nos últimos anos um mercado multimilionário, que atrai investidores, colecionadores e jogadores do mundo todo. Um dado cedido ao The Wall Street Journal pela empresa de análise Card Ladder contextualiza o cenário: cartas de Pokémon raras se valorizaram 3.821% entre 2004 e 2025. Quem compra esses artigos o faz por diferentes motivos: colecionar, investir ou jogar, seja amadoramente, seja em torneios grandiosos, caso do Campeonato Mundial Pokémon organizado anualmente pela própria franquia (a edição de 2026 acontece em agosto, na Califórnia). Os interesses diversos ajudam a moldar o valor de uma carta, a começar pela clássica lógica de oferta e procura. As cartas de Pokémon são lançadas em expansões, geralmente a cada dois ou três meses, e as coleções trazem até centenas de novos modelos. A maioria, no entanto, é comum e não possui grande valor, partindo dos R$ 0,25. “Cada coleção conta com as cartas que as pessoas mais querem achar. Só que elas têm uma tiragem baixa. Você vai precisar abrir muitos pacotinhos, que chamamos de boosters, para encontrá-las”, explica Lucas Borges Cunha, 36, colecionador e especialista no tema, conhecido no meio como TiuSam — seu portfólio gira em torno de 100 mil cartas. “Depois do lançamento, quando o produto sai da prateleira, a coisa escalona de uma forma imprevisível. Pode ser que dobre de valor, pode ser que fique dez vezes mais cara.” Completando três décadas em 2026, as cartas de Pokémon tiveram um 'boom' durante a pandemia e agora atraem novos jogadores, colecionadores e investidores pelo mundo Jazz Hradec/GQ Brasil As cartas antigas costumam concentrar os maiores valores, porém, segundo Peter Petipas, diretor de TCG (sigla em inglês para “jogos de cartas colecionáveis”) da Goldin Auctions, as novas também vêm se valorizando. Até três ou quatro anos atrás, ele diz, era muito difícil ver uma carta especial de uma coleção recente ultrapassar os US$ 500. Hoje, ela pode ficar entre US$ 1 mil e US$ 2 mil logo quando um novo pacote chega às lojas. Raridade, por si só, não basta. Aí, entra outro fator decisivo: o estado de conservação. “Elas são joias, mas joias de papelão, que, se você não cuidar, estragam facilmente. Nós, quando crianças, acabávamos guardando de qualquer jeito, né?”, afirma Lucas. Empresas especializadas, como a Professional Sports Authenticators e a CGC Cards, ficam responsáveis por julgar a condição de cada peça. A partir de critério próprios, elas dão notas de 1 (péssima) a 10 (perfeita). “Uma carta pode valer menos de US$ 100 sem avaliação, mas milhares de dólares se ganhar nota 10, simplesmente porque alguns colecionadores querem o melhor do melhor. A avaliação consegue definir ou arruinar o valor”, analisa Peter. A carta de Logan Paul configura um grande combo: o Pikachu Illustrator faz parte de uma edição especial, nunca lançada comercialmente, distribuída como prêmio em um concurso de ilustração no Japão em 1998. Há apenas 39 unidades conhecidas no mundo e trata-se da única cópia classificada com nota 10 pela Professional Sports Authenticators. Além disso, carrega valor sentimental por ter sido desenhada por Atsuko Nishida, a ilustradora original do Pikachu, o principal personagem da franquia. Vale dizer, as artes também importam; cada ilustrador imprime seu estilo, a exemplo do trabalho de Yuka Morii, que cria esculturas dos monstrinhos e depois as fotografa. Outro ponto relevante consiste no impacto da carta no cenário competitivo. Em uma batalha de Pokémon, cada uma tem função própria (umas atacam, outras atrapalham o oponente...). Cabe ao jogador escolher quais serão úteis para montar seu baralho. As que se tornam essenciais em deques vencedores rapidamente entram no radar de outros jogadores, que às vezes optam por repetir as estratégias campeãs. O mesmo pode acontecer com antigas após o lançamento de expansões, pela possibilidade de combinações diferentes. Diogo Pires, CEO da LigaPokémon, dá o exemplo da chamada Energia Neosuperior, surgida em 2024 e que até setembro de 2025 custava em média R$ 24. Com uma nova expansão no mês seguinte, sofreu um salto para R$ 149,90. Agora, o site registra valores que vão de R$ 140 a R$ 250. No Brasil, a LigaPokémon se tornou referência no assunto. Além de marketplace, configura-se como a principal empresa que monitora o sobe e desce do mercado de cartas da franquia no país. Com base nos valores de lojas, mostra onde encontrar determinada carta pelo custo mínimo, médio e máximo. É nessas cifras apresentadas por lá que colecionadores se baseiam na hora de revender suas preciosidades. São muitos os fatores que tornam uma carta de Pokémon valiosa: a alta procura, baixa tiragem, raridade, conservação... Jazz Hradec/GQ Brasil O 'boom' das cartas colecionáveis de Pokémon Quando foram criadas, em 1996, no Japão, as cartas de Pokémon eram vendidas individualmente em máquinas automáticas. Elas ampliaram o universo da marca, que havia estreado naquele mesmo ano como um jogo para Game Boy e, depois, ganharia o desenho animado que conquistaria o mundo. Em seguida, vieram brinquedos, roupas, decorações... Pokémon se tornou a franquia de entretenimento mais valiosa da história, avaliada hoje em US$ 147 bilhões, segundo a Forbes. As cartas avulsas evoluíram rapidamente. Logo, a companhia lançou seu primeiro conjunto oficial, hoje conhecido como Base Set, com 102 cartas — incluindo dezesseis holográficas, as mais desejadas. O fenômeno se consolidou nos anos seguintes, especialmente a partir de 1999, quando desembarcou nos Estados Unidos e iniciou sua expansão global para mais de noventa países. Ao Brasil, elas chegaram nos anos 2000. Por muito tempo, o entretenimento não contava com tantos interessados, além de crianças fãs da franquia que passaram a se divertir colecionando e trocando com os amigos. Tudo mudou depois de 2020. “Virou uma bola de neve na pandemia. Em home office, a galera estava cheia de interesse e tempo, e seguiu atrás de hobbies. Um dos que ganharam força foi o das cartas, que eram colecionadas em casa. Também voltou a vibe da nostalgia”, diz TiuSam. Segundo dados da empresa de pesquisa de mercado Circana, as compras de cartas colecionáveis não esportivas aumentaram 350% entre 2020 e 2025. A Pokémon logo entendeu a febre e expandiu as impressões: relatórios da companhia mostram que, antes de 2019, a média ficava entre 1,5 e 2 bilhões de cartas por ano. Em 2023, o número chegou aos 11,9 bilhões. Ao todo, desde o lançamento até março de 2025, mais de 75 bilhões de cartas foram produzidas em dezesseis idiomas (inclusive o português). Em atividade desde 2017, a LigaPokémon vê as vendas aumentar ano após ano. Em março de 2026, alcançou os maiores valores transacionados na plataforma até agora. Esse boom tem atraído outros interessados. O engenheiro civil goiano Gabriel Strelow, 24, nunca havia sequer assistido ao desenho do Pokémon, mas no ano passado se deparou com um vídeo no TikTok de uma pessoa abrindo um pacotinho de cartas. Resolveu testar. Comprou R$ 200 de boosters e deu sorte de achar uma no valor de R$ 1.000. “Pensei: isso aqui dá para virar negócio. Hoje praticamente passo o dia abrindo pacotes para revender. É 100% investimento, não tem nada sentimental. Quando lançam coleção nova, compro cerca de R$ 30 mil em pacotes, cada um a mais ou menos R$ 10”, conta Gabriel. “Como está no hype, quando as expansões são lançadas, muita gente vem me procurar para completar a coleção. Daí, consigo vender mais caro. Devo ter em torno de 5 mil cartas raras. A mais cara custa por volta de R$ 4 mil, mas já tive uma de R$ 25 mil.” Quando conversamos para esta reportagem, o jovem havia acabado de voltar dos Estados Unidos, onde passou duas semanas numa viagem dedicada às cartas colecionáveis, tanto para comprar novas quanto para aprender sobre os negócios. Ele pensa em largar a engenharia civil a fim de se dedicar inteiramente a esse mercado e abrir sua própria loja. Gabriel, entretanto, traz um alerta: há que tomar muito cuidado para entrar nesse mundo, porque é questão de sorte encontrar algo realmente valioso em um mundaréu de pacotinhos. Peter, da Goldin Auctions, também sugere cautela. “Nunca gaste mais em uma carta do que você pode se dar ao luxo de perder. Só porque o mercado está em alta hoje não significa que ele não possa recuar ou até colapsar no mês seguinte”, diz. “Às vezes, as pessoas tratam itens colecionáveis como um ativo que só se valoriza, quando, na verdade, eles se comportam como o mercado de ações, com altos e baixos.” As 5 cartas mais valiosas já leiloadas pela Goldin Auctions Pedimos a Peter Petipas, diretor de TCG (sigla em inglês para “jogos de cartas colecionáveis”) da Goldin Auctions para listar as cartas que alcançaram as maiores cifras em leilões da casa. Confira: 1) Pikachu Illustrator, 1998 Pikachu Illustrator Goldin Auctions Valor: US$ $16,492,000 “Dispensa apresentações: é a única cópia já avaliada como PSA 10 e foi usada por Logan Paul diversas vezes. Ela detém o recorde de carta colecionável mais cara já vendida.” Peter Petipas, head de TCG da Goldin Auction 2) Charizard No Rarity, 1996 Charizard No Rarity Goldin Auctions Valor: US$ 1,232,200 “Uma das cartas mais difíceis de encontrar em PSA 10 — atualmente, apenas 10 exemplares alcançaram essa nota. O Charizard No Rarity é, essencialmente, a versão japonesa do Base Set 1ª edição e é considerado um verdadeiro ‘Santo Graal’ por muitos colecionadores de Pokémon.” Peter Petipas, head de TCG da Goldin Auction 3) #1 Trophy Pikachu, 1997 #1 Trophy Pikachu Goldin Auctions Valor: US$ 982,100 “Concedida aos campeões do primeiro grande torneio de Pokémon já realizado, a versão de 1997 dessa carta tem apenas algumas cópias em circulação — e a PSA avaliou apenas oito exemplares até hoje.” Peter Petipas, head de TCG da Goldin Auction 4) Charizard, 1999 Charizard Goldin Auctions Valor: US$ 954,800 “Outra carta que dispensa apresentações: deve se tornar a primeira carta em inglês a ultrapassar a marca de um milhão de dólares, tanto por seu status icônico quanto pela dificuldade notoriamente alta de obter uma boa avaliação.” Peter Petipas, head de TCG da Goldin Auction 5) Kangaskhan, 1998 Kangaskhan Goldin Auctions Valor: US$ 640,507 “Para conquistá-la, precisavam participar de um torneio entre pais e filhos e vencer partidas contra outras duplas. Com uma das artes mais reconhecíveis do lendário ilustrador Ken Sugimori, ela traz o Pokémon canguru Kangaskhan como mascote, em referência direta ao torneio. Como muitas dessas cartas já saíam da gráfica com imperfeições, é extremamente difícil encontrar um exemplar em tão bom estado quanto este.” Peter Petipas, head de TCG da Goldin Auction

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