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"Se não fosse o futebol brasileiro, talvez eu nem tivesse me tornado atleta", diz Lucas Pinheiro, campeão olímpico na neve

GQ | Seu Guia de Moda Masculina, Cultura e Lifestyle [Unofficia… May 11, 2026
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Lucas Pinheiro Braathen, 26, o primeiro atleta a ganhar uma medalha de ouro para a América do Sul nos Jogos Olímpicos de Inverno, tornou-se orgulho nacional. Dois meses após reescrever a história do nosso esporte, o jovem nascido em Oslo, na Noruega, mas com parte da infância vivida no Brasil, está no auge de sua trajetória. Morando no Rio de Janeiro antes de retornar à Europa, ele passará os próximos meses em preparação para campeonatos (com treinos na Cidade Maravilhosa, no Chile e na Argentina). Porém, também curte um merecido descanso saboreando churrasco, sua comida favorita, e ouvindo bossa nova e Jorge Ben. O que vem depois da conquista memorável? “Um sentimento de gratidão, mas também de imensa responsabilidade. O meu trabalho é ter sucesso no esporte para, a partir disso, fazer a diferença. E esse trabalho começa agora. O ouro foi apenas a plataforma”, afirma. Para Lucas, descer uma montanha mais rapidamente do que outros atletas significa somente uma parte da equação. Importa o que vem junto: a mensagem, o impacto. “É sobre usar esse palco. Expressar quem sou”, explica ele, que traz como norte a palavra liberdade. Sua história começa com deslocamentos. Filho de pais separados desde cedo, ele dividiu a infância entre a Noruega e o Brasil, terra natal da mãe. Cresceu atravessando culturas, idiomas e códigos, sem nunca se sentir completamente parte de nenhum deles. Lucas Pinheiro em ensaio exclusivo para a GQ Brasil Thais Vandanezi/GQ Brasil Na Noruega, era muito brasileiro. Aqui, um gringo. Uma sensação constante de não pertencimento, até entender que “casa” deveria vir de um lugar mais profundo, do autoconhecimento, da consciência da própria identidade. Estimulado pelo pai norueguês, esquiador amador, ele começou a praticar o esporte ainda criança, aos 9 anos, quando dizia que “odiava muito” a atividade. Com o tempo e a repetição, porém, a rejeição se transformou em talento, levando-o a representar a Noruega no slalom gigante, uma das categorias do esqui alpino. As conquistas não demoraram a vir. Eis que entra um ponto central de sua trajetória. Em 2023, a relação com a Federação Norueguesa se fragmentou. Ele seguia fazendo referências ao Brasil enquanto competia pelo país nórdico. Aos poucos, isso ampliou uma tensão que deixou de ser apenas esportiva e passou a envolver autonomia e direitos de imagem. Com a infelicidade do jovem, o desfecho veio em outubro daquele ano. Isso até o reencontro com o próprio caminho no Time Brasil, a partir de 2024. A articulação estratégica foi além da troca de bandeira.A Confederação Brasileira de Desportos na Neve e o Comitê Olímpico do Brasil precisaram viabilizar a elegibilidade do atleta junto à Federação Internacional de Esqui e estruturar um projeto competitivo. Mais do que isso, oferecer algo central para Lucas: liberdade para representar plenamente sua identidade. Esse capítulo encontra seu auge em 14 de fevereiro de 2026, na pista de Stelvio, no Bormio Ski Centre, na Itália, durante os Jogos Olímpicos de Inverno de Milano-Cortina. Com direito a dancinha da vitória, bandeira verde e amarela e canto do hino nacional, surgiu no horizonte o topo do pódio. “Tenho certeza de que é desse lugar que vem meu sucesso esportivo também”, afirma, orgulhoso, sobre o ouro olímpico. “Ser brasileiro é fazer parte de uma das culturas mais ricas e diversas do mundo. Espero que possa representar essas pessoas que se sentem como eu, diferentes, um pouco fora da caixa. Quero convidá-las a ficar orgulhosas do que realmente são”, comenta. Na nova fase, ele descobriu outra dimensão do esporte. Lucas Pinheiro em ensaio exclusivo para a GQ Brasil Thais Vandanezi/GQ Brasil “Realmente vivi uma experiência completamente diferente e muito feliz. Achei bastante interessantes as narrações dos jogos. Nos outros países, elas são mais técnicas. Aqui, ouvia ‘vai, Lucas!’, ‘é do Brasil!’. Com emoção, energia. Isso mudou tudo para mim”, diz. Antes do ouro, havia um menino. Nos anos 2000, Lucas se mostrava uma criança apaixonada por Michael Jackson. Realizava “shows” para a família, com a plateia no sofá de casa. Também era obcecado por futebol. “Meu primeiro grande sonho”, define. A liberdade que a modalidade representava fazia seus olhos brilhar. O jogo bonito, com alegria, criatividade, não apenas para vencer. Ronaldinho Gaúcho, Ronaldo, Rivaldo, Kaká... Uma geração que transformou movimento em arte nos gramados. De olho na moda “Crescendo, entendi que a única coisa que todas as minhas fontes de inspiração tinham em comum eram as roupas que usavam”, lembra Lucas. “Hoje sei que tudo o que visto também faz parte da minha performance. Quando você pensa em nomes como Virgil Abloh e Pharrell Williams, vê que eles expandiram o que a moda significa, foram além dela. Criaram uma cultura global que atravessa música, esporte e arte até se materializar num desfile.” Essa percepção se amplia na forma como o atleta enxerga as recentes colaborações da moda com o território esportivo, a exemplo da parceria entre a italiana Moncler e o estilista brasileiro Oskar Metsavaht durante os últimos Jogos Olímpicos de Inverno. “Um look branco, neutro na superfície, mas que revelava, por dentro, a bandeira do Brasil. Só a víamos quando a capa se abria. Essa consciência do indivíduo, de aceitação da identidade; a nossa diferença vive por dentro. Vejo minha conquista também de uma maneira emocional, que fala sobre quem realmente somos por dentro”, analisa. Em abril, Lucas participou do retorno da Rio Fashion Week e comentou sobre o desfile da Osklen, que acompanhou da primeira fila, junto da namorada, a atriz global Isadora Cruz. Lucas Pinheiro em ensaio exclusivo para a GQ Brasil Thais Vandanezi/GQ Brasil “Achei algo tão épico e elegante, no Palácio das Artes, com pai e filho juntos no final. Estudei a marca, conheci a história do Oskar, uma personalidade que vai além da moda, com um propósito diferente dentro da indústria”, diz. Quando fala sobre estilo, o esquiador rejeita noções fixas. “Trata-se de uma representação do que me inspira no dia a dia. Não gosto de definir as coisas, vejo como algo mais fluido.” Para ele, o vestir acompanha seu movimento. “Meu estilo se encontra alinhado com as minhas experiências, viajando, vivendo meus sonhos pelo mundo. Quanto mais pessoas conheço, mais culturas, lugares, marcas, mais isso transforma o meu olhar.” “O esporte virou o palco para eu me expressar, porém passei a entender a moda como uma forma de expressão universal. As roupas carregam identidade, independentemente da profissão ou do que você faz; elas vêm com uma energia e essa liberdade do ser”, diz. Além da neve, dois meses depois de sua medalha de ouro histórica, Lucas se destaca em uma rota veloz. Teve a melhor temporada da carreira dois anos após retornar ao circuito: além da conquista em Milano-Cortina 2026, levantou em março o Globo de Cristal pelo slalom gigante na Copa do Mundo de Esqui Alpino, na qual terminou ainda como o terceiro melhor do planeta no slalom. O jovem ampliou seu território para além das pistas. Adentrou o universo do empreendedorismo como sócio da Octo, marca de skincare lançada em 2025. Avaliada por especialistas em R$ 1 bilhão em valor de mercado, a companhia nasceu de uma necessidade pessoal de Lucas, que vive uma rotina intensa de viagens e competições, somada à exigência constante de uma boa imagem. Lucas Pinheiro em ensaio exclusivo para a GQ Brasil Thais Vandanezi/GQ Brasil A solução veio em forma de síntese, com um único produto de oito ingredientes, um hidratante reparador. De olhar voltado para o outro, o norueguês-brasileiro diz que vem trabalhando na expansão de projetos comunitários. Com a missão de apoiar a juventude no desenvolvimento pessoal, além de facilitar o acesso ao esporte, ele enxerga a inclusão como o principal valor social. Trata-se de uma missão em duas etapas. Primeiramente, a de inspirar e encorajar. Depois, a de agir e contribuir mais solidamente com esse movimento. “Tudo o que faço vem do meu propósito de inspirar as pessoas a ser quem são, para que fiquem felizes. Um dos meus maiores objetivos é poder deixar parte do meu sucesso no Brasil. Na Europa, já tenho um projeto social. Neste momento, quero fazer isso aqui. Agora que possuo essa plataforma com alcance, estou trabalhando para a nova geração de brasileiros, como uma forma de fechar o ciclo. É hora de devolver ao país”, atesta. Além da neve, o futebol também fará parte da jornada do esquiador em 2026, como telespectador e admirador. “Estou muito animado, sempre fico. Se não fosse o futebol brasileiro, talvez eu nem tivesse me tornado atleta. Um dos momentos mais emocionantes deste ano foi ouvir o hino no meio das montanhas nas Olimpíadas. Sempre ouvi o hino antes dos jogos, assistindo à seleção na Copa do Mundo. Agora que vivi essa experiência de trazer o ouro e sentir orgulho da minha história, fico ainda mais animado para a Copa”, diz. Lucas está leve e feliz. Os sorrisos e o entusiasmo que acompanham suas falas sobre o futuro revelam que a proximidade com as origens tem nutrido ainda mais os muitos sonhos que pretende realizar. Aos 26 anos, ele não é mais o menino que fazia shows em frente ao sofá de casa ao som de Michael Jackson. Vemos um campeão, parte de uma geração que convive com rótulos e acaba constantemente bombardeada pelas redes sociais, mas que encontrou paz quando conseguiu ter maior domínio sobre a própria narrativa e dar voz à sua trajetória. Lucas Pinheiro em ensaio exclusivo para a GQ Brasil Thais Vandanezi/GQ Brasil

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