Kaká conta se recebeu convite de Ancelotti, relembra bastidores da Copa e explica por que não quer ser treinador
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May 7, 2026
Imagine, aos 18 anos, sair cedo para trabalhar e, ao voltar para casa, ver tudo mudar. No dia seguinte, carros de reportagem amanhecem estacionados na sua porta e equipes de TV disputam espaço na sala. Foi assim, da noite para o dia, que Ricardo Izecson dos Santos Leite virou Kaká para o país. Ou melhor, Cacá, como ainda escrevia o apelido que ganhou do irmão mais novo, Rodrigo, na infância. A virada de chave tem data e placar: 7 de março de 2001, 2x1. Aos 34 minutos do segundo tempo, o São Paulo perdia o jogo de volta contra o Botafogo na final do Torneio Rio-São Paulo em pleno Morumbi. O jovem meia, que acabara de entrar em campo, marcou os dois gols que cimentaram a conquista do tricolor paulista. O estádio veio abaixo com o garoto magrelo que dava os primeiros chutes para se tornar um dos maiores ídolos da história do futebol brasileiro. No “Globo Esporte” da quinta-feira seguinte, a apresentadora Mylena Ciribelli definiu: foi o herói da vitória. Parecia improvável. Especialmente porque, poucos meses antes, a carreira de Kaká quase havia terminado sem mesmo começar direito. “Em outubro de 2000, sofri um acidente muito sério na piscina. Fraturei a sexta vértebra cervical descendo em um toboágua. Ao ser atendido pelo médico, a primeira pergunta que fiz foi: ‘Quando posso voltar a jogar?’. Ele me disse: ‘Olha, hoje não é dia de questionar, mas de agradecer, porque, em muitos acidentes como o seu, as pessoas não voltam a andar’”, conta o ex-craque. Kaká é capa de maio da GQ Brasil Franco Amendola/GQ Brasil Hoje, aos 44 anos, ele entende que as coisas mudaram mais rapidamente do que conseguia assimilar. Não existia cartilha para saber como lidar com a pressão, com momentos ruins, erros, críticas... Havia também a nova realidade financeira. Kaká não reclama, pelo contrário; mostra-se grato, diz que foi tudo um grande presente de Deus. Porém, sabe que ganhava o bastante para destrambelhar a cabeça de um jovem, que, no começo, quase saiu "daquilo que era a essência dos valores de casa”. Nessa hora, como em muitas outras de sua vida, entrou em cena sua base mais sólida: a família. Quando renovou o contrato com o São Paulo, chegou à residência onde morava com os pais decidido: compraria um carro no dia seguinte. “Meu pai falou: ‘Senta aqui que a gente vai conversar. O dinheiro é seu, você faz o que quiser, mas aqui as coisas funcionam de outra forma’”, conta. “Foi uma conversa que me trouxe para a Terra, que me fez pensar: ‘Opa, calma aí, não vamos nos empolgar tanto’. Meus pais sempre trouxeram aquilo que era a nossa verdade absoluta, a questão dos nossos valores. Eles foram fundamentais nisso.” A família se mostrou essencial também em promover o encontro do menino com o futebol. Nascido em Brasília, Kaká se mudou aos 4 anos de idade para Cuiabá, depois que o pai, engenheiro civil, recebeu uma proposta de emprego por lá. Na capital mato-grossense, ele, o irmão e a bola se tornaram inseparáveis. Todas as brincadeiras envolviam chutar uma pelota para lá e para cá. A relação com o esporte ficou mais séria quando migrou para São Paulo, aos 7 anos, também por causa do emprego do pai. Um ano depois estava jogando na base do SPFC. Ao finalmente conseguir uma oportunidade no profissional, em 2001, seguiu a máxima “Foguete não dá ré”. Sem ter completado ao menos um ano nessa categoria, foi convocado para a seleção e, posteriormente, para a Copa do Mundo de 2002. Kaká é capa de maio da GQ Brasil Franco Amendola/GQ Brasil A expectativa de saber se iria ou não para o Mundial se estendeu até o último minuto. Dias antes, uma ligação alimentou sua ansiedade. Belletti, que jogava com ele no SPFC, recebeu um telefonema de Felipão. O então técnico do Brasil queria saber se Kaká estava fisicamente bem. Ao ouvir uma resposta positiva, não falou mais nada. Logo veio a confirmação. Aos 20 anos, o atleta seria o caçula de uma equipe superestrelada, com Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho, Roberto Carlos, Cafu, Rivaldo... “Vivi uma euforia. Lembro que me sentei para o café da manhã e eles começaram a chegar. Até outro dia eu jogava com esses caras no videogame. Houve uma mistura de fã com ‘agora a gente está no mesmo time’. Estávamos do outro lado do mundo, então era muito ‘nós’, todos trocando experiências. Lembro muito do golfe no corredor. Tínhamos um taco e um copinho de plástico. O Ronaldo se divertia com o Dida, fazia apostas de brincadeira”, recorda. Kaká jogou poucos minutos nesse Mundial, mas viveu um momento marcante. Na final contra a Alemanha, o jovem agoniado tentava entrar em campo nos últimos minutos da partida. Galvão Bueno decretou: “Todo mundo quer que o Kaká entre”. Então, o juiz apitou. “Mas não dá tempo porque acabou. Acabou. É penta!” “Claro que queria jogar mais um pouco, entrar na final, mas estar ali comemorando o título significava muito mais. É o que fica para mim”, diz. Depois, Kaká participou de mais duas Copas, em 2006 e 2010. Hoje, ele curte se ver do outro lado, o de torcedor, acompanhando com expectativa mais uma edição do Mundial, que começa em 11 de junho. Afirma confiar 100% no trabalho do técnico e amigo de longa data Carlo Ancelotti. “É o perfil de treinador que cai muito bem para o atual momento da seleção, sempre bastante estratégico e extremamente inteligente”, analisa. Recentemente, circularam boatos sobre um provável convite para que o ex-craque integrasse a comissão técnica da seleção. “Um ano antes do Ancelotti vir, conversamos sobre essa possibilidade de ele treinar o time, mas em nenhum momento houve um convite oficial para que eu fizesse parte da equipe técnica.” Kaká é capa de maio da GQ Brasil Getty Images O italiano foi um dos técnicos que treinaram Kaká por mais tempo (no Milan, de 2003 a 2009, e no Real Madrid, em 2013). Desde então, os dois mantêm uma relação de admiração mútua. Ancelotti dedica um capítulo inteiro de sua autobiografia, “O Sonho: Quebrando o Recorde de Vitórias da Champions League” (2025), para elogiar o amigo. O texto bem-humorado começa com as primeiras impressões do treinador sobre o atleta, quando acabara de pousar em Milão, em 2003. Kaká exibia uma pinta de estudante de bochechas coradas que fez Ancelotti sentir vontade de arrancar tufos de cabelo e questionar se ele sabia chutar uma bola. Outro ídolo, Cafu, se tornaria seu colega de equipe nessa época, e lembra da ida do jovem à Itália longe das asas da família. “Pedi aos meus filhos que dessem muita atenção a ele, porque ele tinha acabado de chegar. Vi que estava sozinho, então sempre procurei fazer com que saísse, fizesse amizades, aprendesse o caminho dos restaurantes. Enfim, para que realmente se sentisse da família, né?”, lembra Cafu. Kaká confirma: “Os caras realmente cuidaram de mim, o Cafu, o Serginho, o Dida, o Rivaldo. Então, nunca me senti sozinho”. Ele tinha 21 anos — mais velho se comparado aos parâmetros atuais, segundo os quais jogadores cada vez mais novos vão atuar fora do país, mas ainda um menino aos olhos de todos, inclusive do desconfiado Ancelotti. Tudo mudou no instante em que o treinador viu Kaká em ação no primeiro dia de treinamento. Nas palavras de Ancelotti: “Ele entrou em campo e eu ouvi um coro celestial e o som de trombetas. Era um gênio enviado dos céus, realmente enviado por Deus. Então, se me permitem: obrigado, Senhor”. Pode parecer exagero se você for uma pessoa completamente descolada do futebol, mas saiba que não é. No livro, o técnico define o motivo: “Ele foi o segundo melhor jogador que já treinei [atrás apenas de Zidane] — e certamente o mais inteligente. Ele entende as coisas na hora, pensa duas vezes mais rapidamente do que os outros; quando recebe a bola, já sabe como a jogada vai terminar.” Seu talento não só trouxe louros coletivos (além do campeonato italiano, o Milan levou uma Liga dos Campeões, uma Supercopa da Uefa e uma Copa do Mundo de Clubes quando ele estava lá) como também vitórias individuais, a exemplo do prêmio de melhor jogador do mundo pela Fifa e de uma Bola de Ouro, ambos em 2007. “Nunca tive esse sonho. Meu sonho de criança era virar profissional pelo São Paulo e jogar uma vez com a seleção”, conta. Ele acredita que para alcançar esse nível precisou também contar com um time de peso; no caso, uma equipe formada por Dida, Andrea Pirlo, Paolo Maldini, Seedorf, Cafu... “O crescimento do Kaká foi muito rápido. Com pouco tempo, ele já era o melhor do mundo, uma das maiores estrelas do Milan, uma referência do futebol global. Mas ele só evoluiu porque quis evoluir, porque quis aprender, porque se adaptou; e acho isso muito louvável”, opina Cafu. Kaká é capa de maio da GQ Brasil Franco Amendola/GQ Brasil No auge, a cabeça de um ídolo pode estar a milhão, pensando: e agora, e depois? As cobranças não param porque você virou o melhor do mundo — elas se intensificam. Kaká viveu a volatilidade do futebol. “Aos poucos, aprendi a não ir aos extremos. Não achar que eu era o melhor do mundo nem o pior”, afirma. Ele aprendeu a lidar com as críticas, separando as construtivas das que carregam um tom maldoso. Em sua visão, para os jovens jogadores de agora, há um agravante: as redes sociais. “Isso ficou muito mais vivo, contínuo, e trouxe outros desafios para a saúde emocional. Na minha época, falava-se em psicólogo do esporte, mas era pouco. Hoje realmente tornou-se algo mais intenso”, pontua. Por dezesseis anos, a vida de Kaká, assim como a de outros atletas de elite, foi ditada pelo esporte. O futebol determinava seus horários, suas refeições, seu lazer. Uma vida intensa de dedicação, mas que dura relativamente pouco. No caso dele, a rota precisou ser recalculada em 2017, aos 35 anos, quando atuava no Orlando City. “Comecei a ver uma oscilação de humor grande em relação ao futebol. Tinha dias em que estava superfeliz, indo treinar alegre, e outros em que não queria mais saber de nada. Muitas vezes estava em campo, mas queria estar fazendo outra coisa”, lembra. Ao fim da temporada, recorreu àquilo que sempre se mostrou sua base: a família e a fé. Evangélico, reuniu os mais próximos e propôs um período de quarenta dias de oração antes de tomar qualquer decisão. Nesse intervalo, realizou testes, revisitando clubes que marcaram sua trajetória na Europa, como Milan e Real Madrid, em busca de algum sinal que o fizesse querer continuar. “Não senti nada, nenhuma vontade de seguir jogando. Ficou muito claro para mim que tinha chegado a hora de parar”, diz. Encerrar a carreira no campo, no entanto, não significou afastar-se do universo que o formou. No ano seguinte, Kaká começou a se especializar no tema, em cursos de gestão esportiva, negócios e estratégia, em instituições como a Fifa e a renomada Harvard. Aventurou-se até na formação da CBF para virar treinador. Mas não se iluda, torcedor: não há nenhum plano de seguir nesse caminho tão cedo. “O futebol me ensinou que existem duas perguntas importantes: o que eu quero e o que estou disposto a fazer pelo que quero. Gostaria de me tornar treinador? Sim. Agora, o que estou disposto a fazer por isso? Não muita coisa. Realmente não quero abrir mão do meu final de semana, das minhas férias, do meu tempo com os meus filhos, com a minha esposa”, afirma, referindo-se à modelo Carol Dias Leite, com quem é casado desde 2019, e aos quatro filhos, Luca, 17, Isabella, 14, Sarah, 10, e Esther, 5. O esporte virou hobby e uma maneira de manter o corpo e a mente saudáveis. Treinar é parte inegociável do dia a dia, alternando academia, partidas de tênis e golfe. “Quando não faço, parece que está faltando algo”, comenta. O atual lado profissional de Kaká envolve uma correria equilibrada entre compromissos institucionais ligados ao futebol, diversas campanhas publicitárias, a administração de empresas (incluindo a nova sociedade com a gelateria Italien) e a presidência da Kings League Brasil, competição que mistura esporte e entretenimento. “A Kings League não veio para substituir o futebol tradicional, é um complemento. Trata-se de uma forma de conversar com a nova geração, de transmitir valores através do futebol”, explica. Kaká é capa de maio da GQ Brasil Franco Amendola/GQ Brasil
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