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O que o ‘boom’ dos procedimentos estéticos entre homens revela –  e esconde, segundo psicanalista

GQ | Seu Guia de Moda Masculina, Cultura e Lifestyle [Unofficia… April 29, 2026
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O cuidado masculino com a aparência sempre precisou de uma cobertura narrativa para ser socialmente tolerado, porque não bastava querer parecer bem. Era necessário que esse querer estivesse a serviço de algo maior e mais legítimo, a performance atlética, a credibilidade profissional, a conquista amorosa, qualquer coisa que deslocasse o centro de gravidade do desejo pela própria imagem para uma finalidade que não fosse simplesmente a de se sentir bonito. O homem que se olhava no espelho com atenção precisava, ao mesmo tempo, cultivar a aparência de quem não estava fazendo isso. Esse acordo tácito está se desfazendo, e os números documentam a velocidade com que isso acontece. Entre 2018 e 2024, os procedimentos cirúrgicos realizados em homens cresceram 95%, e os tratamentos não cirúrgicos, como injeções e lasers, cresceram 116%, mais que o dobro do crescimento registrado entre mulheres no mesmo período, segundo dados da Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética. O mercado global de medicina estética movimentou 9,6 bilhões de euros em 2025, e as projeções indicam crescimento médio de 5% ao ano até 2030, puxado em parte por uma demanda masculina que há dez anos mal aparecia nas estatísticas. A pergunta que esses números colocam não é quantos homens estão fazendo botox, mas o que mudou na relação dos homens com a própria imagem para que esse movimento seja possível agora. A psicanálise entende o corpo como superfície de inscrição do desejo e da angústia, e o que um sujeito faz com o próprio corpo raramente se esgota na dimensão estética. É também uma tentativa de regular algo interno que escapa ao controle direto, e quando essa regulação não encontra elaboração psíquica, ela procura o corpo como via de acesso. John Berger, crítico de arte britânico que em Modos de Ver, livro e série televisiva de 1972, analisou como o ato de olhar nunca é neutro e carrega relações de poder, argumentou que na tradição ocidental o homem olha e a mulher é olhada, e que as mulheres internalizaram esse olhar a ponto de se observarem permanentemente de fora, como se fossem ao mesmo tempo sujeito e objeto do próprio olhar. O que os dados do mercado estético sugerem é que os homens estão sendo recrutados para esse mesmo lugar, não exatamente por escolha consciente, mas pela combinação de redes sociais que multiplicam superfícies de comparação e de uma indústria que descobriu um mercado praticamente inexplorado. A normalização do procedimento estético masculino pode ser lida como a queda de um preconceito que impedia o homem de cuidar de si sem precisar justificar esse cuidado, e há algo de genuíno nessa leitura. Mas ela convive com outra, igualmente verdadeira: a de que o que está sendo normalizado é também a relação com o próprio rosto como problema a corrigir, como projeto que nunca chega ao fim porque a indústria que o sustenta depende estruturalmente da insatisfação como combustível. Freud dizia que o ego é antes de tudo um ego corporal, e que a imagem que o sujeito constrói de si passa pelo corpo de forma inevitável, mas essa imagem é sempre parcialmente imaginária, sempre defasada em relação ao que aparece no espelho. O procedimento estético promete fechar essa defasagem, o que explica por que quem começa raramente para no primeiro, não por fraqueza de caráter, mas porque a promessa é estruturalmente impossível de cumprir. Não se trata de condenar o botox nem de romantizar a indiferença masculina com a aparência que existia antes, porque essa indiferença era também uma forma de privilégio que dispensava o homem de um trabalho que as mulheres nunca puderam recusar. O que vale perguntar é o que cada homem está buscando quando decide que o próprio rosto precisa ser outro, se é uma escolha que parte de um desejo genuíno ou uma resposta a uma angústia que o procedimento vai aliviar provisoriamente sem tocar no que a originou. Às vezes a distinção é clara, às vezes não é, e é justamente quando não é que o espelho começa a cobrar um preço que não estava no orçamento.

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