Redução da pobreza ainda depende de auxílio social
Valor Econômico [Unofficial]
June 29, 2026
Crianças da comunidade de Saramandaia, em Salvador, jogam futebol Antonio Cruz/Agência Brasil A dependência do Nordeste dos programas sociais permanece, especialmente para enfrentar a extrema pobreza. Mas a forma de encarar os desafios da região está mudando. Um conjunto de fatores, incluindo desemprego em baixa histórica e maior escolaridade, está levando a um cenário favorável de redução de pobreza, afirma o economista Marcelo Neri, diretor do FGV Social. Segundo ele, os efeitos da transferência de renda do Bolsa Família e do Benefício de Prestação Continuada (BPC) na região acabam tendo um efeito multiplicador maior, por serem focados nos mais pobres. “Lembrando que houve nos últimos três anos reajuste de 2,5% acima da inflação do salário mínimo. No caso do BPC, isso impacta o benefício e a elegibilidade. Houve também uma multiplicação de beneficiários do BPC”, afirma. Ainda assim, a alta da renda reduziu a pobreza sem alterar as desigualdades regionais, concluiu pesquisa dos economistas Vitor Hugo Miro, João Mário de França e Flávio Ataliba, do Centro de Estudos para o Desenvolvimento do Nordeste do Instituto Brasileiro de Economia (FGV Ibre). De 2021 a 2025, o país teve recuperação recorde da renda domiciliar per capita e forte redução da pobreza, de 39,1% para 25,1% da população. Porém, no Nordeste esse índice é de 42,4%. No ano passado, a região reunia cerca de 45% do total de pessoas pobres do país. No ano passado, 18 milhões de famílias do país receberam auxílio do governo, ou 22,7% dos domicílios, contra 23,6% em 2024. Mas essa dependência é bem maior no Nordeste: 39,8%. No Maranhão, 45,6% dos lares são atendidos pelo Bolsa Família, seguido por Piauí (45,3%), Alagoas (41,7%), Ceará (40,3%), Paraíba (40,2%), Bahia (38,7%) e Pernambuco (37,6%). A diminuição dos beneficiários em nível nacional tem a ver com a queda do desemprego, avalia França, do FGV Ibre. “Algumas famílias estão deixando o Bolsa Família, principalmente por ingressarem no mercado de trabalho. Também tem a questão do aumento de eficiência no cruzamento de dados”, diz. Neri ressalta estudo da FGV que mostra que 70% dos jovens cujos pais eram beneficiários do Bolsa Família não estão no programa dez anos depois. França destaca que, no Nordeste, programas sociais são especialmente relevantes na redução da extrema pobreza, no combate à desigualdade e na melhoria da segurança alimentar. Mas diz que aperfeiçoamentos são necessários. “Principalmente na melhoria da eficiência, na busca de emancipação das famílias e na modernização administrativa. O principal é criar cada vez mais estímulos para a integração com o mercado de trabalho.” Em 2024, 78,8% da renda das famílias em extrema pobreza no Nordeste vinha de programas sociais, segundo estudo do FGV Ibre. De acordo com França, um levantamento preliminar mostra que essa proporção está hoje entre 75% e 76%. “Quando a gente olha a redução da extrema pobreza, ela vem praticamente toda dos benefícios sociais, principalmente do Bolsa Família”, diz o economista. “De 2021 para cá, houve uma redução muito forte da extrema pobreza na região. Isso mostra a força desses programas sociais”, ressalta. Especialistas debatem os efeitos práticos da alta dos benefícios. Por causa da pandemia, houve um aumento no valor e na abrangência dos programas (com pico em 2020 e 2021). Trabalho do pesquisador Daniel Duque, também do FGV Ibre, mostra que o Bolsa Família ampliado causa um impacto forte na redução da oferta de trabalho de homens, especialmente de jovens, e nas regiões Norte e Nordeste. França avalia que os efeitos ainda são muito localizados e em grupos mais jovens, e destaca outro impacto igualmente significativo, que é a melhora na dignidade do trabalho. Os trabalhadores podem evitar trabalhos muito insalubres, argumenta. A isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5.000 também pode ter efeitos. “Praticamente 90% da população nordestina está nessa faixa. Tudo é muito direcionado para consumo. Haverá um impacto monetário direto”, diz França. Mas, segundo ele, no grupo dos extremamente pobres não há efeito expressivo. O mesmo raciocínio vale para o futuro cashback tributário. Outro estudo do FGV Ibre mostra que ele vai elevar em 10% a renda das famílias pobres, mas o ganho no Nordeste será menor, de apenas 7,7%. França argumenta que a vantagem é ser um benefício a mais. “Por isso é importante a melhoria do Cadastro Único [CadÚnico].”
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