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Por que o técnico do Haiti nunca pisou no país da seleção que ele comanda

Valor Econômico [Unofficial] June 19, 2026
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O Haiti, que enfrenta o Brasil nesta sexta-feira (19), está de volta à Copa do Mundo em 2026 após 52 anos. O feito de estar no torneio foi conquistado pelo francês Sébastien Migne, que lidera a seleção desde abril de 2024, mas que nunca pisou no país devido à violência que domina a terceira maior ilha do Caribe. Essa é a segunda vez que o país participa da Copa do Mundo — a primeira foi em 1974 com uma eliminação precoce na fase de grupos. Segundo a última atualização do Escritório Integrado das Nações Unidas no Haiti (BINUH, na sigla em inglês), mais de 1,6 mil pessoas foram mortas e 745 ficaram feridas no país no primeiro trimestre de 2026. Desse total, 27% foram responsabilizados pelas gangues, 4% por grupos de autodefesa e 69% por operações das forças de segurança realizadas contra os grupos violentos. “É impossível [ir ao Haiti] porque é muito perigoso. Normalmente moro nos países onde trabalho, mas não posso nesse daqui. Não há mais voos internacionais aterrissando lá”, afirmou Migne à revista France Football, em novembro de 2025. Naquele ano, foram registradas 5.915 mortes, um aumento de 5% em relação a 2024, e 2.708 pessoas feridas, alta de 22% na mesma comparação, segundo o órgão da ONU. Na entrevista, Migne disse também que se baseou em informações sobre jogadores locais fornecidas por telefone por dirigentes da federação haitiana de futebol. "Eles me deram as informações e eu gerenciei a equipe remotamente." Com craques internacionais no elenco, Migne precisou também convencer alguns desses atletas a defenderem a camisa haitiana, como Jean-Ricner Bellegarde (Wolverhampton, na Inglaterra), Josué Casimir (Auxerre, na França), Hannes Delcroix (Lugano, na Suíça) e Wilson Isidor (Sunderland, na Inglaterra), todos convocados para o mundial deste ano. Próxima fase de um Estado falido O professor Alexandre Pires, de Relações Internacionais do Ibmec, afirma que o Haiti enfrenta a maior crise de toda sua história. Segundo ele, o país representa "a próxima fase de um Estado falido", sem perspectivas futuras devido ao amplo controle de grupos armados sobre o território. Segundo ele, a atual crise humanitária e de violência, sem precedentes, se intensificou após o assassinato do então presidente Jovenel Moïse, em 2021, episódio que desencadeou uma espécie de guerra civil. "A partir desse momento, o Haiti, que sempre foi um país politicamente instável e economicamente em crise, passa a ver essas gangues controlando rotas comerciais, estruturas econômicas, centros de distribuição de alimentos, de combustíveis e estradas", informa o professor. Policial e civil em meio troca de tiros entre gangues e forças de segurança, em Porto Príncipe, Haiti Odelyn Joseph/AP Desde então, o país não conseguiu consolidar um Estado funcional. Segundo o especialista, todas as eleições realizadas após o assassinato do presidente foram inviabilizadas pela ação de gangues. Nesse cenário, diferentes grupos armados da capital se uniram em uma coalizão voltada ao controle territorial. Atualmente conhecida como Viv Ansanm, essa aliança figura como um dos polos do conflito: de um lado, enfrenta civis haitianos que se armaram para se proteger; de outro, resiste às tentativas de intervenção humanitária lideradas pela ONU e pelos Estados Unidos. "Até as embaixadas que vivem ali operam muitas vezes no mínimo ou não operam. É extremamente arriscado você ir para o país, pois você pode ser sequestrado, [cujo resgate] é uma das fontes de renda dessas gangues", afirma Pires. "Por isso, o Migne não está lá, pois a sua vida está sempre exposta." A ajuda humanitária internacional tenta entrar no país há dois anos, mas não obteve grandes conquistas devido à falta de um Estado consolidado e do alto domínio dos grupos criminosos, conclui o especialista. *Estagiária sob supervisão de Diogo Max

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