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Calor extremo nas passarelas de Paris: o impacto do aquecimento global na indústria da moda

Vogue | Moda, Beleza, Desfiles, Lifestyle e Celebridades [Unoff… June 26, 2026
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Pela primeira vez, jogos da Copa estão precisando de pausas para hidratação, eventos da Semana do Clima em Londres foram cancelados e desfiles da Paris Fashion Week Men’s tiveram horários alterados, tudo por conta da forte onda de calor que atinge a Europa e reforça que as mudanças climáticas já fazem parte do cotidiano. “O ponto aqui não é uma coincidência de calendário, é a mesma crise se manifestando em vários setores. O calor extremo não distingue a indústria, ele expõe quem não está preparado. A questão climática é agora, não é mais uma questão de futuro”, explica Thais Scharfenberg, internacionalista e consultora de impacto socioambiental. Saiba mais Após semanas de moda em cidades como Milão e Florença já terem sido afetadas por temperaturas muito altas, a Paris Fashion Week Men’s começa em meio a uma nova onda de calor que pode ser uma das mais intensas já registradas na França, com temperaturas acima de 40°C. Realizar um desfile em meio a uma situação de calor extremo não apenas coloca em risco a saúde de quem assiste, mas também expõe inúmeros trabalhadores dos bastidores, que tornam o evento possível, a condições potencialmente perigosas. Isso levanta a preocupação sobre como a indústria da moda vai lidar com eventos cada vez mais impactados pelo clima extremo. “Quando a gente fala do papel das marcas, eu vejo que elas investem muito em storytelling de sustentabilidade, mas ainda há pouca gestão real de risco climático e de transição justa” , reforça Thaís. Charli XCX tentou driblar o calor recorde de Paris com um ventilador portátil durante o desfile masculino de verão 2027 do Saint Laurent, nesta semana Reprodução Originado no movimento sindical e reconhecido no Acordo de Paris, o conceito de transição justa defende que a ação climática e a mudança para uma economia de baixo carbono devem acontecer de forma justa e inclusiva, garantindo que trabalhadores, comunidades e grupos vulnerabilizados não sejam deixados para trás nem prejudicados por essas transformações. Na moda, isso significa olhar para toda a cadeia produtiva, do campo às costureiras. “Há uma ironia muito cruel nisso: os desfiles acontecem em Paris, Milão e Nova York, mas muitas roupas ainda são produzidas em países como Bangladesh e Vietnã, que já vivem há anos os impactos do calor extremo. E a trabalhadora têxtil que está lá, sem ar-condicionado na confecção, não vira manchete”, destaca a especialista. “A transição climática na moda só pode ser considerada justa quando abrange toda a cadeia de valor, e não apenas o segmento de luxo visível nos desfiles. Isso implica considerar suas múltiplas etapas, especialmente no Sul Global, dos ateliês de alta-costura às fábricas.” Os impactos da crise climática já são concretos na cadeia produtiva da moda em diferentes partes do mundo. No Brasil, as enchentes de 2024 atingiram mais de 400 municípios do Rio Grande do Sul, afetando milhares de fornecedores do setor e empresas locais, muitas que até 2025 ainda não haviam se recuperado totalmente. Em outros países, os efeitos também são severos. No Paquistão, as enchentes de 2022 causaram mais de mil mortes e destruíram grande parte da produção de algodão, enquanto uma onda de calor em 2024 provocou apagões e escassez de água. Na Índia e em Bangladesh, ondas de calor e enchentes têm afetado a saúde e a segurança de trabalhadores da indústria têxtil e interrompido a produção. No Camboja, dezenas de fábricas foram paralisadas por enchentes, e em Marrocos, uma inundação em uma fábrica informal resultou na morte de trabalhadores. A cadeia da moda não atua de forma isolada. É um setor complexo e global, que envolve transportes, agricultura, petróleo e diferentes elos produtivos. Mudanças locais podem impactar rapidamente um sistema global. “Algumas fibras naturais dependem de condições climáticas muito específicas para crescer. Essas ondas de calor podem destruir safras inteiras ", lembra a especialista. Rick Owens desfilou sua coleção masculina de verão 2027 no espelho d'água do Palais de Tokyo, durante onda de calor em Paris. No desfile, uma collab inédita com a Adidas e jaquetas infláveis com tecnologia Climacool, pensadas para baixar a temperatura do corpo Getty Images Os atuais cancelamentos e ajustes na Europa também reforçam outra problemática conectada à moda: a necessidade de adaptação nas cidades e nas próprias roupas. “Essas cidades foram planejadas para outro clima e hoje não contam com infraestrutura adequada. Faltam áreas verdes, sistemas públicos de resfriamento e espaços que permitam a circulação do ar. Por isso, adaptação climática não é uma pauta do futuro, é uma urgência do presente. Quando um desfile precisa ser remarcado porque o asfalto está derretendo, não estamos diante apenas de um evento climático isolado, mas de uma falha de planejamento urbano. E a moda, inserida nesse contexto, também faz parte dessa discussão”, explica Thaís. Thais Scharfenberg - Internacionalista e Consultora de Impacto Socioambiental Divulgação “A gente provavelmente vai ver mudanças nas próprias roupas. Talvez mais chapéus, tecidos que ajudem no resfriamento do corpo e peças pensadas para temperaturas extremas. A adaptação climática pode chegar ao design das roupas e também ao comportamento do consumidor. Em um cenário de 45°C, o desejo muda, o consumo muda, e até o timing das coleções vai precisar se adaptar às novas condições climáticas.” Por outro lado, a moda é um setor criativo, que comunica, se transforma e tem potencial de atuar como agente de mudança. É necessário responsabilidade e comprometimento de todos os elos da cadeia, por isso a necessidade de ação climática, transparência e políticas públicas. “Existe uma narrativa sendo reescrita em tempo real, e a moda vai ter que acompanhar”, finaliza Thais. Nota: Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Vogue Brasil.

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