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"textContent": "\nTem um momento em Rio de Sangue em que a câmera solta o enquadramento e deixa o Tapajós tomar a tela inteira. O rio é tão largo que parece mar, e ali, no meio daquela imensidão, uma personagem luta para não se afogar. A cena não estava no roteiro original. Gustavo Bonafé a criou no próprio set, depois de visitar a locação e entender que não daria para desperdiçar aquilo. \"Para onde se aponta a câmera é bonito\", ele diz à Vogue Brasil. Filmar no Pará foi uma escolha que o filme carrega em cada quadro. O longa acaba de estrear nos cinemas brasileiros e chega num momento em que o cinema nacional parece cada vez mais disposto a olhar para si mesmo sem o filtro do eixo Rio-São Paulo. O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, indicado ao Oscar 2026 em quatro categorias e vencedor de melhor diretor e melhor ator em Cannes, fincou sua história no Recife dos anos 70 com a mesma convicção com que Bonafé planta a sua no interior paraense. São filmes diferentes em tudo, mas que partem do mesmo entendimento: o Brasil é muito maior do que as histórias que costumamos contar sobre ele. A trama acompanha Patrícia Trindade (Giovanna Antonelli), uma policial afastada após uma operação fracassada que a deixou na mira do narcotráfico. Ela foge para Santarém, no Pará, atrás de segurança e de uma chance de reconstruir o vínculo com a filha Luiza (Alice Wegmann), médica voluntária de uma ONG que atende comunidades indígenas no Alto Tapajós. O que era para ser um recomeço vira uma corrida contra o tempo quando Luiza é sequestrada por garimpeiros. Patrícia volta a ser policial porque não tem outra opção, e porque ser mãe exige exatamente o mesmo tipo de coragem. A produção, que ainda conta com nomes como Antonio Calloni e Sérgio Menezes no elenco, é da Intro Pictures, com coprodução e distribuição da Disney, e marca o retorno de Bonafé ao cinema de gênero. Ele é o mesmo diretor de O Doutrinador, de 2018. Nesse caso, o atual é um trabalho que não pede desculpas pelo ritmo frenético, mas que também não abdica de ter coração. O protagonismo de Antonelli e Wegmann é raro no cinema de ação brasileiro. As duas são destemidas, corajosas, físicas, e ainda carregam uma certa complexidade que o gênero normalmente não exige -- embora seja muito bom ver Giovanna dando um pau em uma porção de gente \"Rio de Sangue\" Divulgação \"Essa tensão entre força e fragilidade me interessa muito como atriz\", comenta Antonelli. \"A Patrícia é treinada para ter controle. Mas emocionalmente, ela está atravessada por culpa, por medo, por instabilidade. A força dela nasce do afeto, não de ela ser uma mulher invencível.\" Wegmann, que cresceu vendo Giovanna em novelas desde Laços de Família (2000), descreve a experiência de contracenar com ela como algo que extrapola a admiração de longa data. \"Esse filme a Giovanna acessa um lugar muito diferente, muito mais cru dessa personagem. É muito impressionante ver o quanto essa mulher se reinventa.\" A química entre as duas é construída em dois meses de filmagens no Pará, de cenas de ação exigentes de dia e mergulhos em igarapés na hora do almoço. \"Quando dava o 'ação', a gente virava a chave rápido pra entrar na atmosfera. Mas quando cortava a câmera, eu e a Giovanna já estávamos fazendo mil piadas\", conta Alice. Essa sintonia de bastidor respira no filme. O lado emocional da trama não suaviza a ação em momento algum. No cinema de ação, todo protagonista está tentando salvar algo ou alguém. A questão é o quê, e por quê. Aqui, é uma filha. E quando a motivação é essa, a urgência de cada cena ganha outro peso. Gustavo usa a Amazônia como matéria-prima. A floresta define o ritmo, o perigo, a lógica do filme. \"A Amazônia consegue ser inóspita ao mesmo tempo que é exuberante\", observa Giovanna. \"E para a composição do personagem, pô, era exatamente isso que a Patrícia estava vivendo por dentro. Então essa estética não foi suavizando o conflito. Foi ampliando o significado dele.\" Com isso, a beleza e a brutalidade coexistem sem que uma anule a outra. \"A gente tinha sempre o desejo de mostrar a bela Amazônia e a tragédia acontecendo lá dentro\", explica. \"O contraste é o que vai te chocar. E ao mesmo tempo é o que vai fazer você se apaixonar por aquele lugar.\" Há cenas em que o diretor deliberadamente escondia a beleza do cenário para trazer a dureza de volta, e cenas em que deixava a natureza falar sem mediação nenhuma. A fotografia primorosa de Kauê Zilli soube trabalhar os dois registros. A principal referência de Bonafé para o ritmo e a tensão foi Sicário, de Denis Villeneuve. \"É um filme que você fica o tempo inteiro pisando em ovos, que te mantém tenso\", diz ele. Para filmar a floresta em si, o diretor foi pelo instinto. \"As coisas que eu assisti sobre a Amazônia não me pegaram a ponto de eu querer ir por aquele caminho. A gente acabou buscando um caminho mais próprio.\" Esse caminho incluiu storyboards extensos, visitas de locação, duas câmeras simultâneas nas cenas de perseguição e a construção de um garimpo do zero numa antiga olaria. O público vai ver aquele cenário na tela sem imaginar que ele não existia antes das filmagens. \"O estudo é o que faz você conseguir, na hora, diminuir as variáveis e ter sucesso no trabalho das cenas\", conta o diretor. Cena de \"Rio de Sangue\" Divulgação O personagem Mário, interpretado pelo ator Fidélis Baniwa, narra a história. É ele o olhar da floresta sobre tudo que acontece. \"O Mário é o grande protagonista da nossa história\", diz Antonelli. Ao lado dele, o escritor e ativista Daniel Munduruku vive um personagem indígena que trai a própria comunidade. Mas encontrar Baniwa não foi simples. O ator mora no interior do Amazonas e chegou ao projeto depois de um processo longo de pesquisa e testes. \"A gente fez uma pesquisa vasta atrás desse ator para conseguir achar ele para esse personagem. A gente sabia da densidade, da profundidade que o personagem precisava ter\", relembra Bonafé. Giovanna Antonelli Divulgação Toda a cena da aldeia foi filmada numa comunidade Munduruku real, durante quatro dias, com a equipe hospedada em barcos ancorados do lado de fora por respeito às regras locais. Membros da comunidade trabalharam na direção de arte. A cacica Maria Leusa participou como atriz. A língua munduruku está no filme. \"O Fidelis chegou pra mim e falou: é muito importante isso que vocês estão fazendo. Eu nunca vi tanta liderança indígena junta para fazer o mesmo filme\", continua. A consultoria foi feita desde o roteiro pela Val Munduruku, uma indígena cuja aldeia foi destruída pelo garimpo ilegal. Ela não mora mais onde morava. Foi ela quem indicou o local de filmagem. \"O garimpo ilegal, a exploração da floresta, o extermínio das populações indígenas, tudo isso está ali escancarado nas telonas de uma maneira peculiar\", diz Alice Wegmann. \"Gosto muito de fazer filmes com propósito, que lutam pelas causas em que eu acredito.\" Rio de Sangue habita o Norte do Brasil sem \"exotificá-lo\", e ao fazer isso entra numa conversa que o cinema nacional está travando com mais frequência e mais segurança. \"Acho muito importante descentralizar a nossa cultura. O Brasil é muito maior que isso\", reflete Alice. Giovanna concorda: \"A floresta amazônica é o pulmão do mundo. Ter a oportunidade de passar dois meses imersa naquela região foi um verdadeiro presente.\" Revistas Newsletter",
"title": "\"Rio de Sangue\" leva a Amazônia para o centro do cinema de ação brasileiro"
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