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Zezé Motta relembra racismo: “Disseram que gente negra não vendia”

Vogue | Moda, Beleza, Desfiles, Lifestyle e Celebridades [Unoff… April 15, 2026
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A trajetória de Zezé Motta é daquelas que pede fôlego para ser contada. São mais de seis décadas de carreira atravessando cinema, televisão, música e teatro, sempre com uma presença marcante e provocativa. Agora, aos 81 anos, sua atuação se expande ainda mais. A artista está de volta às novelas na trama global das seis, A Nobreza do Amor, aparece como protagonista na série (In)vulneráveis, disponível no Globoplay, e acaba de estrear nos cinemas com Mãe Bonifácia, em que interpreta uma mulher negra alforriada do século XIX, uma figura histórica que se tornou símbolo de resistência. Essa presença múltipla marca uma das maiores características da artista, que é uma inquietação que nunca saiu de cena. E é essa mesma energia que agora a leva para um novo território: o publicitário. Zezé é o rosto da Rara, uma produtora audiovisual criada por mulheres, que nasce com a proposta de criar uma comunicação com profundidade e intenção. A escolha de Zezé para ser a imagem e a voz da agência tem um peso grande. Uma mulher negra, madura, com uma história que atravessa décadas de exclusão e conquista, ocupando o centro de uma campanha em um setor que, por muito tempo, não reconheceu corpos como o seu, é muito relevante. “Lembro da minha primeira campanha publicitária, nos anos 70. Eu estava no auge, mas o dono da marca, quando viu as fotos, não quis publicar, disse que gente negra não vendia”, lembra Zezé. Hoje, ao entrar em um set e encontrar mulheres dirigindo, produzindo, criando e atuando, ela reconhece ali não apenas uma mudança, mas um desejo antigo que finalmente est. Em entrevista à Vogue, Zezé fala sobre esse momento, maturidade, preconceito e permanência. Acompanhe. Vogue: Zezé, você já contou que, quando era mais jovem, não era chamada pelo mercado publicitário. Hoje, aos 81 anos, protagoniza campanhas importantes. Você enxerga isso como avanço real ou ainda como exceção dentro de um mercado que historicamente excluiu mulheres mais velhas e negras? Zezé Motta: Olha, eu vejo, sim, como um avanço, seria injusto dizer que nada mudou. Mudou. Hoje eu estou em campanhas, sou chamada, tenho visibilidade… e isso, há alguns anos, simplesmente não existia para uma mulher como eu. Mas também não sou ingênua de achar que virou regra. Ainda é exceção. Lembro da minha primeira campanha publicitária, nos anos 70. Eu estava no auge, mas o dono da marca, quando viu as fotos, não quis publicar, disse que gente negra não vendia. Ele pagou meu cachê, mas não colocou a campanha no ar... Eu fiquei arrasada! O mercado publicitário sempre foi muito restritivo, e quando você soma idade, raça e gênero, essas barreiras ficam ainda mais evidentes. Eu senti isso na pele durante muito tempo. Então, quando apareço hoje nesses espaços, claro que celebro! Mas também entendo o peso disso. Porque não é só sobre mim. Eu represento muitas mulheres que continuam não sendo chamadas. O que está acontecendo agora é uma abertura importante, necessária, mas ainda tímida diante do que precisa ser transformado de verdade. Inclusão não pode ser tendência, nem momento. Tem que ser estrutura. Vogue: Você transmite uma energia e uma presença muito marcantes. O que mudou — ou o que se fortaleceu — na sua relação com o corpo, a disposição e a vitalidade ao longo dos anos? Zezé Motta: Mudou a forma como eu me enxergo. E isso muda tudo. Quando a gente é mais jovem, existe uma cobrança muito grande de fora, e, muitas vezes, a gente compra essa ideia sem perceber. Eu também já passei por isso. Já me olhei com mais dureza, já me cobrei mais do que devia. Com o tempo, fui me reconciliando comigo. Fui entendendo o meu corpo como minha casa, minha história, meu instrumento de trabalho… e, principalmente, como um lugar de afeto. Hoje eu me escuto mais, me respeito mais. A vitalidade que as pessoas enxergam não vem de uma fórmula mágica. Vem de presença. Vem de estar inteira onde eu estou. Vem de uma curiosidade pela vida que eu nunca perdi. Claro que o corpo muda e ainda bem. As pessoas, às vezes, brincam e falam: ‘Nossa, Zezé, você tinha um corpão antigamente’. Aí eu retruco, digo ‘Corpão eu tenho hoje em dia, que estou enorme’. Mas não tô nem aí pra isso, estou feliz comigo assim. Cada fase traz uma consciência diferente. Hoje eu tenho uma relação muito mais gentil comigo mesma, mas também muito mais potente. Eu sei o que eu carrego. E talvez seja isso que as pessoas percebem: não é sobre ter a energia de antes, é sobre ter uma energia com sentido. Vogue: A sua carreira atravessa diferentes momentos do feminismo no Brasil. Como você enxerga essa evolução e em que medida sente que as mulheres, hoje, estão de fato mais livres? Zezé Motta: Eu tive o privilégio e também o desafio de atravessar muitos momentos dessa história. Quando comecei, falar de feminismo nem sempre era bem recebido. Muitas vezes, as mulheres que levantavam a voz eram vistas como difíceis, exageradas… e isso servia, na verdade, para nos silenciar. Hoje, existe muito mais espaço, mais consciência, mais diálogo. As mulheres estão ocupando lugares que antes nos eram negados, e isso é uma conquista imensa. A gente fala, se posiciona, questiona e, principalmente, se reconhece umas nas outras. Isso fortalece. Mas liberdade não é uma linha reta, nem algo que a gente conquista de uma vez só. Ela ainda é atravessada por muitas camadas de raça, de classe, de idade. Eu, como mulher negra, sempre vivi essas interseções de forma muito concreta. Então, sim, avançamos, e muito. Mas ainda existe um caminho importante pela frente. O que me anima é ver que hoje existe uma geração que não aceita mais o silêncio como resposta. E isso muda tudo. A liberdade, pra mim, hoje, está muito ligada à consciência. Quanto mais a gente entende quem é, de onde veio e o que merece, mais livre a gente se torna. E isso ninguém tira. Zezé Motta Divulgação Vogue: Vivemos em uma cultura que ainda rejeita o envelhecimento, especialmente o feminino. Você sente que sua presença hoje desafia esse padrão? Zezé Motta: Eu acho que a minha presença, sim, acaba desafiando esse padrão, mas não porque eu tenha planejado isso. É porque eu continuo aqui. Viva, ativa, trabalhando, desejando, criando, existindo com potência. E, infelizmente, só isso já é visto como uma quebra de expectativa quando se trata de uma mulher mais velha, ainda mais sendo uma mulher negra. A gente vive numa cultura que tenta domesticar o envelhecimento feminino. Existe uma ideia de que a maturidade precisa ser “bonita”, “discreta”, “aceitável”, como se a gente tivesse que caber num lugar confortável para o olhar do outro. E eu nunca tive muito talento pra caber. O tempo me deu liberdade. Liberdade pra dizer não, pra escolher onde eu quero estar, pra entender o meu valor sem depender tanto da validação externa. Isso incomoda, às vezes. Porque uma mulher madura, consciente de si, não é tão fácil de enquadrar. Envelhecer, pra mim, não é desaparecer. É ganhar densidade, ficar mais inteira. E isso, sinceramente, não deveria ser exceção deveria ser referência. Vogue: O que você gostaria que as mulheres soubessem sobre envelhecimento e maturidade? Zezé Motta: A saudosa Tônia Carrero dizia que pra não envelhecer precisava morrer cedo. E você conhece alguém que quer morrer jovem? Eu gostaria que as mulheres soubessem que envelhecer não é perda, é construção. A gente cresce ouvindo que o tempo vai tirar coisas da gente, mas o tempo também dá. Dá consciência, repertório, coragem. Dá, principalmente, uma liberdade que só vem quando a gente entende que não precisa mais viver para corresponder à expectativa dos outros. A maturidade tem uma beleza que não está na aparência, está na presença, na forma como a gente se coloca no mundo, como escolhe, como diz “não”, como se respeita. Claro que existem desafios, mudanças no corpo, no ritmo… Mas isso não diminui ninguém. Pelo contrário, amplia. Porque você passa a viver com mais verdade. Eu acho que o mais importante é isso: não comprar essa ideia de que existe um prazo para ser interessante, desejada, relevante. Isso é uma construção que não nos pertence. A gente não perde valor com o tempo, a gente aprende a reconhecer o próprio valor.

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