Sororidade ou rivalidade? O que está por trás das críticas entre mulheres
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April 8, 2026
Nos anos 1960 e 1970, mulheres feministas, especialmente nos Estados Unidos, passaram a usar o termo sisterhood (irmandade entre mulheres) para incentivar o apoio, o fortalecimento e a união entre as mulheres. No Brasil, a palavra sororidade (do latim soror que significa irmã) passou a ser usada a partir dos anos 2000, com o impacto dos debates feministas no mundo acadêmico e nos movimentos sociais. Sororidade é a ideia de união, solidariedade e amizade entre mulheres, mas, na prática, enfrenta desafios em contextos de competição, de rivalidade e de desigualdade internalizados pelas próprias mulheres. Desde o início das minhas pesquisas, com a publicação do livro A Outra: um estudo antropológico sobre a identidade da amante do homem casado, em 1990, tenho enfatizado a importância de cultivar essa a amizade. Muitas vezes, como aparece em meus estudos, são as próprias mulheres que reproduzem e fortalecem a “lógica da dominação masculina”, acreditando que os homens são superiores e competindo entre si para serem as únicas. Essa ideia se manifesta quando mulheres internalizam padrões de competição e de rivalidade impostos por uma cultura patriarcal, achando que só há espaço para uma no mercado profissional e até mesmo no chamado “mercado afetivo e sexual”. Recentemente, aqui na Vogue, escrevi sobre as críticas que a fisiculturista Mônica Bousquet, de 64 anos, recebeu de outras mulheres por postar um vídeo no Instagram fazendo cárdio na bike de biquíni. Escrevi, também, como Márcia Barbosa, reitora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, é criticada por mulheres do mundo acadêmico por usar minissaia. Esses casos demonstram claramente que os preconceitos contra as mulheres não se limitam ao julgamento individual: eles reproduzem normas sociais de controle do corpo e do comportamento feminino, reforçando padrões de dominação masculina. Recentemente, no programa Revista CBN, conversei com Petria Chaves. Eu disse que o que mais me entristece é constatar que algumas mulheres fortalecem e reproduzem ambientes tóxicos de ódio, competição, comparação e inveja. “Nós denunciamos o machismo, o patriarcado, a dominação masculina, e parece que as mulheres estão fora disso. Infelizmente não é assim, porque a lógica cultural é a da competição, da comparação e da inveja.” Mesmo quem defende a “sororidade”, às vezes, age com rivalidade, por medo de perder espaço ou reconhecimento. “Quando eu sou sua amiga e divulgo seus livros, muita gente pensa: ‘poxa, a Mirian está alimentando o sucesso de outra mulher que pode roubar o meu lugar’. Então, acreditam ser melhor ignorar ou tentar desqualificar o trabalho dela. Até mesmo mulheres que defendem a sororidade agem assim. Em meio a tanta competição tóxica, é difícil fazer uma amizade verdadeira porque muitas enxergam a outra como inimiga.” Em outro programa, na TV Cultura, com Ingrid Gerolimich, enfatizei um ponto que minhas pesquisas comprovam. Ao perguntar “Quem vai cuidar de você na velhice?”, a resposta das mulheres foi “eu mesma” e, em seguida, “minhas amigas”. As respostas da maior parte das mulheres que pesquisei, inclusive das que são casadas e têm filhos, reforçam a ideia de que as amigas são a nossa principal riqueza em todas as fases da vida. Quando me perguntam sobre o que é sonoridade na prática, não consigo esconder uma certa angústia e tristeza. Porque, apesar de o termo significar amizade e união entre as mulheres, na realidade é comum ver muitas delas competindo, invejando e buscando diminuir outras mulheres, às vezes mais agressivamente do que alguns homens fazem no ambiente de trabalho e até mesmo dentro das nossas famílias. O que estamos perdendo, reforçando essa lógica da dominação masculina, é a oportunidade de transformarmos o imaginário coletivo consolidado há séculos para, finalmente, não apenas valorizar o potencial de outras mulheres como compreender que juntas somos muito mais fortes e corajosas. E essa transformação, ou revolução, tem a ver com atitudes no dia a dia, e não apenas em discursos sobre sororidade.
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