Adolpho Veloso, indicado ao Oscar por "Sonhos de Trem": “É tudo muito surreal”
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March 15, 2026
"Cinema é uma questão do que está dentro do quadro e do que fica fora dele." A frase de Martin Scorsese sintetiza a linguagem cinematográfica com precisão. Em Sonhos de Trem, essa relação entre o que se revela e o que permanece fora de campo se torna essencial – resultado direto do trabalho de Adolpho Veloso, diretor de fotografia indicado na categoria de Melhor Fotografia do Oscar 2026, que acontece neste domingo (17.03). A câmera observa o mundo com paciência: paisagens amplas, florestas densas, montanhas e trilhos que parecem cortar territórios quase intocados. Há algo de profundamente contemplativo na forma como o tempo se dilata dentro do quadro. Em muitos momentos, o silêncio da natureza ocupa a tela com mais força do que os próprios personagens, transformando a paisagem em presença emocional constante. A fotografia aposta em observação paciente, quase meditativa. A luz natural molda a textura das imagens, enquanto os enquadramentos deixam espaço para o acaso – para o vento que passa pelas árvores, para o movimento da água ou para a solidão de um homem diante de uma vastidão. É algo que vai muito além da narrativa e vai com o objetivo de ampliá-la. O trabalho visual se torna camada fundamental da experiência, o que ajuda a construir o sentimento de passagem do tempo e deslocamento que atravessa a história. Dirigido por Clint Bentley e baseado no livro de Denis Johnson, o longa acompanha décadas da vida de um trabalhador da construção de ferrovias no interior dos Estados Unidos no início do século 20. Interpretado por Joel Edgerton, o protagonista atravessa transformações profundas, tanto em sua vida pessoal quanto no próprio território ao seu redor, à medida que a paisagem americana se moderniza. Em conversa exclusiva com Vogue Brasil, o paulistano que mora em Portugal diz que ainda tenta assimilar o que está acontecendo. "Tem sido muito doido, cara. Nunca imaginava que isso ia acontecer, apesar de ser um sonho", afirma sobre as diversas indicações durante a temporada de premiações -- em especial o Oscar, claro. "Mas é aquele tipo de sonho que parece tão distante que é tipo ganhar na Mega-Sena. Você joga sabendo que a chance é quase nula. Então é tudo muito surreal, mas incrível." A surpresa também está ligada à dimensão do próprio projeto. "É um filme bem menor em termos de orçamento do que os outros que estão indicados, principalmente na minha categoria", explica. "Então é uma surpresa. Estou muito feliz com o reconhecimento que o filme está tendo." Adolpho Veloso no set de "Sonhos de Trem" Divulgação Antes de chegar a Hollywood, a trajetória de Adolpho foi construída gradualmente. "Foi muito passo de formiga", lembra. "Um degrau após o outro." Começou em projetos pequenos — clipes, curtas, publicidade, até ganhar dimensão internacional. "Primeiro veio uma publicidade na Argentina, depois um filme em Portugal, depois no México e nos Estados Unidos. Foi realmente uma coisinha de cada vez." Um momento importante foi o encontro com Bentley em Jockey (2021), apresentado no Sundance Film Festival. A parceria abriu caminho para que o diretor o convidasse novamente para Sonhos de Trem. Dessa vez, Veloso participou desde as primeiras etapas de desenvolvimento. "É muito bom quando você tem tempo para assimilar a história e pensar sobre ela", explica. "Normalmente você chega no projeto quando muitas coisas já estão definidas." Esse tempo de preparação permitiu que a linguagem visual fosse construída em diálogo com o tom emocional da narrativa. "O trabalho do diretor de fotografia é traduzir o roteiro em imagens", diz. "Fazer todas as escolhas de câmera, lente, o que a câmera vai fazer, e de luz." Ao longo do filme, essa tradução se manifesta em uma abordagem que privilegia observação e duração. Em vez de espetáculo ou virtuosismo técnico, a câmera parece interessada em captar pequenas variações da vida cotidiana — a passagem das estações, a mudança da luz ao longo do dia, a presença silenciosa da natureza. O resultado é uma estética que reforça a dimensão introspectiva da história. Adolpho Veloso no set de "Sonhos de Trem" Divulgação Muito embora a recepção seja positiva, Veloso admite que assistir ao próprio trabalho continua sendo desconfortável. "Você assiste o filme tantas vezes durante o processo que é impossível não olhar de forma crítica", diz. "Você está sempre procurando problemas." Ao mesmo tempo, a resposta do público tem sido gratificante. "Às vezes recebo mensagens de pessoas dizendo que o filme ajudou muito porque elas viveram uma situação parecida de luto ou deslocamento", conta. "E isso é incrível, porque foi justamente por isso que eu me apaixonei por cinema." Para ele, esse é um dos aspectos mais poderosos da arte cinematográfica. "Quando você faz um filme, você não sabe exatamente como ele vai chegar nas pessoas. Mas quando ele encontra alguém naquele momento certo, pode ter um impacto muito forte." A indicação ao Oscar também abriu espaço para visibilidade incomum para profissionais que trabalham atrás das câmeras. "Existe uma identificação óbvia com atores, porque são quem você vê na tela", observa. "Mas o cinema, mais do que qualquer outra arte, é um trabalho em equipe." Desde o anúncio das indicações, amigos começaram a demonstrar curiosidade sobre a profissão. "Um amigo meu diretor de fotografia me mandou mensagem dizendo que muita gente que ele conhecia começou a perguntar o que exatamente ele fazia." De acordo com ele, essa curiosidade é bem-vinda. "É muito legal quando as pessoas começam a perceber que existem muitas outras áreas criativas dentro do cinema." Cena de "Sonhos de Trem", com direção de fotografia assinada por Adolpho Divulgação A indicação chega em período particularmente significativo para o audiovisual brasileiro. O Agente Secreto também aparece entre os indicados, concorrendo em quatro categorias. "Estou muito feliz com o momento que o cinema brasileiro está vivendo", diz. "Fazer parte disso, mesmo que de uma maneira pequena, já é muito especial." À medida que a cerimônia se aproxima, ele se vê em posição pouco familiar. Acostumado aos bastidores, agora precisa lidar com entrevistas, fotos e eventos da temporada. "Eu sou a pessoa atrás da câmera", afirma. "São situações completamente fora da minha zona de conforto." Ainda assim, reconhece que essa exposição faz parte do processo de levar o filme até o público - e até os votantes das premiações. "Se você não faz esse trabalho, simplesmente as pessoas não assistem ao filme", diz. "Então o máximo que você pode fazer é levar o trabalho e falar: 'olha, está aqui'." Independentemente do resultado, o brasileiro parece encarar o momento com entusiasmo -- e um pouco de ansiedade. "É tudo muito surreal", resume. "Mas também é incrível fazer parte de um filme que está tocando as pessoas." As indicações de Adolpho Veloso Uma lista que navega diferentes épocas e estilos, mas todas compartilham um olhar muito particular sobre luz, paisagem e atmosfera. Abaixo, Adolpho revela filmes cuja fotografia o marcou profundamente e que o inspiraram ao longo de sua carreira. Dias de Paraíso, 1978 "Dias de Paraíso" Divulgação Terrence Malick e o fotógrafo Néstor Almendros criaram aqui uma aula de luz natural. Almendros ficou conhecido por trabalhar obsessivamente durante o magic hour, aqueles minutos entre o pôr do sol e a escuridão, para captar paisagens do Texas que parecem pinturas. O resultado? Oscar de Melhor Fotografia. Influenciou gerações de cineastas depois. O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford, 2007 "O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford" Divulgação Andrew Dominik dirigiu um western que respira melancolia. Roger Deakins, fotógrafo indicado ao Oscar, fotografou como se estivesse recriando velhas fotografias de época com paisagens sombrias e lentes antigas. Uma atmosfera que parece assombrada. Jesse James nunca foi tão elegíaco. Cidade de Deus, 2002 "Cidade de Deus" Divulgação Fernando Meirelles e Kátia Lund explodiram a tela com César Charlone na fotografia. Cores vibrantes, câmera dinâmica acelerada, ritmo visual que bate junto com a violência da favela. Indicado ao Oscar, o trabalho provou que cinema brasileiro tinha linguagem própria. Ataque dos Cães, 2021 "Ataque dos Cães" Divulgação Jane Campion dirigiu tensão pura. Ari Wegner fotografou paisagens amplas de Montana com uma paleta contida de cores restritas que sufocam psicologicamente. Cada frame é calculado para criar desconforto. Ari Wegner foi premiada no Festival de Veneza. Feliz como Lázaro, 2018 "Feliz como Lázaro" Divulgação Alice Rohrwacher criou algo entre realismo e fábula. Hélène Louvart fotografou com luz quase religiosa em imagens luminosas numa comunidade rural italiana que parece fora do tempo. Mitologia visual pura.
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