Es Devlin estreia grande exposição imersiva em São Paulo com instalações monumentais
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March 13, 2026
A artista e cenógrafa britânica Es Devlin construiu uma das linguagens visuais mais reconhecíveis da cultura contemporânea. Nas últimas três décadas, seus cenários monumentais e ambientes imersivos moldaram a estética de espetáculos que vão da Royal Opera House e do National Theatre a turnês globais de artistas como Beyoncé, U2 e Lady Gaga. Também estão em seu currículo eventos de escala planetária, como a cerimônia de encerramento dos Jogos Olímpicos de Londres, em 2012. Quatro anos depois, ela voltaria ao universo olímpico ao criar o design cenográfico da cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos do Rio 2016, colaborando com a equipe criativa liderada por Fernando Meirelles, Daniela Thomas e Andrucha Waddington. Agora, essa imaginação arquitetônica – que costuma transformar palcos em paisagens mentais – chega ao Brasil em sua forma mais autoral com a exposição “Sou o Outro do Outro”, em cartaz na Casa Bradesco, em São Paulo, a partir de domingo (15.03). Concebida como uma travessia por espelhos, luz, som e linguagem, a mostra reúne instalações de grande escala que convidam o público a repensar identidade, alteridade e coexistência no mundo contemporâneo. A exposição marca a primeira grande individual de Devlin no país e foi desenvolvida especialmente para o espaço, em diálogo direto com a arquitetura do edifício e com o contexto cultural de São Paulo. Curada por Marcello Dantas, a mostra transforma o percurso expositivo em uma experiência ativa: em vez de observar as obras à distância, o visitante atravessa ambientes que deslocam certezas, multiplicam perspectivas e ativam o corpo como ferramenta de pensamento. Ao longo de sete instalações, entre elas a paisagem de conhecimento compartilhado de Infinite Library, o labirinto reflexivo de Mirror Maze e o coro multiespécie de Come Home Again, o público é convidado a experimentar aquilo que a artista descreve como uma “sociedade temporária”. “O convite é para que a pessoa esteja aberta a se tornar parte de uma comunidade temporária ao entrar na obra”, diz Devlin durante encontro com Vogue. “Estamos em um contexto de galeria de arte, mas o que estou trazendo é uma pequena mudança nesses termos de interação, porque trago 30 anos de prática no teatro, em concertos, dança, ópera.” A ideia de que a arte pode alterar o modo como percebemos o mundo acompanha Devlin desde muito cedo. Ela lembra de uma visita decisiva ao Whitney Museum of American Art, em Nova York, quando ainda era jovem. “Eu estava andando pelo museu, nunca tinha estado lá antes. Vi uma mesa, uma cadeira, um aparelho de televisão, coisas muito cotidianas nas quais me senti ancorada. E então uma coruja apareceu do nada – uma coruja gigante”, recorda. “Essa coruja mudou minha vida. Teve um impacto enorme na minha compreensão de como objetos, ambientes e situações podem mudar vidas, contar histórias, ser obras de arte e provocar mudanças de consciência.” Essa percepção acabou atravessando toda a sua prática, do teatro à música, do design de palco às instalações. A relação entre obra e público é central no pensamento da artista. Para ela, cada grupo de visitantes transforma a experiência da instalação. “Você experimenta isso como uma espécie de sociedade em ensaio”, explica. “Toda grande obra de arte que mudou minha vida me convidou a ver o mundo de forma diferente através da lente dela. Você experimenta uma obra de arte como se fosse um par de óculos: pergunta como o mundo parece através dessa lente. Meu convite é que o público experimente a obra assim – e depois guarde esses óculos no bolso de trás quando sair.” Essa lógica de transformação coletiva ganha uma dimensão particularmente potente em Mirror Maze, o labirinto de espelhos que ocupa o centro da exposição. Devlin imagina o espaço como um organismo vivo formado pela presença dos visitantes. “Normalmente a luz do sol entra por esse vazio central”, diz. “Mas neste caso será a luz de mil sóis, de todas as pessoas juntas.” Os espelhos facetados fragmentam e multiplicam os reflexos, criando uma espécie de mosaico humano em constante mutação. “É como se fragmentos de cada pessoa colidissem com fragmentos de todas as outras”, descreve. “É uma proposta muito utópica, assim como o nascimento.” A luz, aliás, é um dos materiais mais fundamentais de sua linguagem artística. A artista a entende como matéria existencial, não apenas um recurso técnico. “Tudo está apenas em diferentes estágios de existência. Nós somos feitos de luz do sol. Este copo é feito de luz do sol”, afirma. Devlin descreve até um pequeno ritual pessoal ligado a essa ideia: “Eu coloco o despertador 20 minutos antes de precisar acordar. Esses 20 minutos são reservados para mim e para a estrela mais próxima.” Esse diálogo íntimo com a luz se traduz na exposição em uma espécie de dramaturgia luminosa. “Assim que você entrar na obra eu vou contar uma história através da luz em movimento. O espelho na peça central é um condutor infinito de luz. Ele nunca fica parado. Cada vez que uma pessoa se move, a luz muda.” Muito embora sua carreira internacional esteja profundamente associada à cultura pop e a grandes espetáculos, Devlin insiste que o processo criativo permanece essencialmente o mesmo em qualquer escala. “Honestamente, o processo de criação é sempre o mesmo. Sempre existe um texto primário”, explica. “Esse texto pode ser o planeta, pode ser um livro que li, pode ser a letra de uma música escrita por um músico que prestou atenção a um momento específico neste planeta.” Para ela, o gesto artístico é inevitavelmente coletivo. “Este trabalho tem meu nome no cartaz, mas o número de colaboradores é enorme. Cada pessoa que cola um pedaço de espelho toma decisões. Para mim isso é tão importante quanto alguém desenhando uma ombreira para a Lady Gaga. Se um espelho não for colado corretamente, a comunicação não funciona. Se uma nota musical for cantada errada, a comunicação também não funciona.” Embora esta seja sua primeira grande exposição no Brasil, Devlin já teve outros encontros com o país. Um deles aconteceu durante um desfile da Louis Vuitton no Museu de Arte Contemporânea de Niterói, projeto que ela descreve como sua “introdução excepcional” ao nosso País. “Voltar agora, dez anos depois, trazendo meu próprio conjunto de poemas, que evoluíram ao longo dos últimos dez anos da minha prática de instalações artísticas, é muito significativo para mim”, diz. Es Devlin Anna Be Garcia Ao longo dos anos, a artista também se aproximou de criadores brasileiros que ajudaram a ampliar sua compreensão da cultura local, entre eles os músicos Paula Morelenbaum e Jaques Morelenbaum, cujo trabalho ao lado de Ryuichi Sakamoto ela cita como influência. O que mais a impressiona, porém, é algo mais profundo. “Sinto que aqui artistas, curadores e músicos estão na linha de frente percebendo a urgência do que está acontecendo com os ecossistemas”, afirma. “E respondem com uma força e urgência incomparáveis, mas também com beleza. Essa resposta é irresistível. Porque não é apenas poderosa, é bela.” @casabradesco Serviço “Sou o Outro do Outro” — Es Devlin Casa Bradesco Março de 2026 Terça a domingo, das 12h às 20h Ingressos: R$ 50 (inteira) | R$ 25 (meia) Entrada gratuita às terças-feiras Vendas: bilheteria física ou MATA App
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