Rita Guedes reflete sobre amadurecimento: "Há um ganho enorme em envelhecer"
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March 10, 2026
O ano de 2025 foi marcado por uma profunda mudança interna para Rita Guedes. Apesar do sucesso de sua personagem em Arcanjo Renegado, a governadora Manuela, das aulas de teatro para meninas em um orfanato e dos projetos que escreveu para tirar do papel em 2026, foi o olhar interno sua maior conquista. Ganhos, ela conta, que vieram com o amadurecimento. "Há um ganho enorme em envelhecer. Você tem muito mais experiência sobre muita coisa", afirma. "Estou com 53 anos, e eu me sinto muito melhor do que quando eu tinha 30. Hoje em dia estou muito mais segura, sei muito mais sobre mim e sobre outros assuntos que me interessam", afirma. "Me nego a enxergar o passar dos anos como uma coisa ruim", afirma. Em fevereiro, anunciou sua saída de Arcanjo Renegado após cinco temporadas – a quinta, já gravada, estreia na Globoplay no segundo semestre. Rita decidiu não seguir para a sexta. "Nesse trabalho fiz novos amigos e reencontrei outros e isso me deu um enorme prazer. Mais uma etapa cumprida", diz. Em entrevista para a Vogue, Rita reflete sobre imagem, mercado e o que deseja para si. "Quero contar histórias do universo da idade que eu estou vivendo. Isso é muito rico. Quando você limita essa questão da idade, é muito sufocante, porque eu não vivo da minha imagem. Eu vivo do meu talento", diz. "Claro que eu tenho que ter saúde, mas eu sou uma artista, não estou presa a essa imagem. Se eu começar a envelhecer, a ter rugas e mais rugas, e chegar aos meus 100 anos de idade... que maravilha! Espero estar com a cabeça ótima. Procuro ver os ganhos, e não as perdas, de envelhecer." A seguir, confira na íntegra: Vogue: O etarismo é um tema pelo qual você tem se posicionado e que tem ganhado força no debate público. O que te move a trazer essa conversa para o foco? Rita: Eu acho que a gente tem que repensar a maneira que é colocada, em vários âmbitos, a questão do etarismo. Começa desde os recados nas ruas: eu trocaria a palavra idoso por experiente. Parece que quem vai ficando mais velho, com o passar do tempo, vai ficando em desuso. Isso é absolutamente irreal, porque há um ganho enorme em envelhecer. Você tem muito mais experiência sobre muita coisa. Estou com 53 anos, e eu me sinto muito melhor do que quando eu tinha 30. Hoje em dia estou muito mais segura, sei muito mais sobre mim e sobre outros assuntos que me interessam. Então, acho que a gente teria que começar a ter uma outra visão disso, uma outra colocação, e parar de falar tanto em idade. Quando você vai envelhecendo, você vai ter que virar uma chave dentro de você, teu corpo não vai ser o mesmo. Vogue: Como tem sido essa virada de chave para você? Rita: Vejo como algo muito positivo, de muito ganho. Quando a gente é mais nova, a gente tem o corpo todo bonitinho, o exterior todo como a gente está satisfeito, porém tem muitas incertezas, muitas ansiedades, dúvidas... Me nego a enxergar o passar dos anos como uma coisa ruim. Todas as idades têm os seus prós e os seus contras. Por que quando a gente chega perto dos 40, 50, vai ficando um certo desespero? Porque você está olhando só para fora. E o teu maior tesouro está dentro. E é isso que eu acho que temos que valorizar. Vogue: De que forma esse debate atravessa sua própria trajetória como mulher, como artista e como uma figura pública que lida diretamente com expectativas de imagem? Rita: Acho muito cafona essa coisa de 50+, 60+, 40+. Não sei de onde surgiu isso, mas acho muito limitante. Nelson Rodrigues já dizia que o artista, o ator, tem a idade do seu personagem. E é nisso que eu acredito. Eu sou uma artista, eu estou aqui para contar histórias. Claro que, com 20 anos de idade, eu contava as histórias daquele universo; com 30, outras histórias; com 40, outras histórias; com 50, outras, e por aí vai. E eu quero contar histórias do universo da idade que eu estou vivendo. Isso é muito rico. Quando você limita essa questão da idade, é muito sufocante, porque eu não vivo da minha imagem. Eu vivo do meu talento. Claro que eu tenho que ter saúde, e é isso que eu procuro cuidar na minha vida sempre, com a minha alimentação, com exercícios, e me sentir bem com o meu corpo, não por uma pressão de que eu tenho que estar com o corpo assim ou assado. Eu faço para mim, da maneira que eu me sinto bem, da maneira que me faz sentir saudável e estar com o meu corpo pronto para trabalhar. Mas eu sou uma artista, não estou presa a essa imagem. Se eu começar a envelhecer, a ter rugas e mais rugas, e chegar aos meus 100 anos de idade... que maravilha! Espero estar com a cabeça ótima, com saúde, para poder contar essas histórias com 100 anos de idade. Procuro ver os ganhos, e não as perdas, de envelhecer. Vogue: Arcanjo Renegado segue como um dos grandes sucessos da Globoplay. Como você enxerga a evolução da série desde a primeira temporada e, especialmente, da sua personagem, que acompanha a trama desde o início? Rita: Fico muito feliz com essa trajetória toda do Arcanjo Renegado. Quando recebi o convite, estava morando em Los Angeles. Quando eu li, a história me prendeu muito, tanto é que eu li os dez episódios em um dia só. Fiquei apaixonada, me chamou muito a atenção a abordagem e o tema que estava sendo colocado nessa série. Hoje em dia as pessoas têm um interesse muito grande em política, independentemente da faixa etária, e o Arcanjo coloca temas políticos da nossa atualidade, coisas até que a gente gravou e depois de um tempo, de alguns meses, estourou aí alguma coisa que a gente já tinha gravado lá trás. Os roteiristas parecem que conseguem sentir essa ebulição, é quase uma coisa investigativa, de saber para onde é que o caminho está levando, o que que vai estourar lá na frente. E a série fala muito desse bastidor da política, como é que são feitos esses acordos, esse jogo político, essas tramas todas. E a Manuela, minha personagem, é uma grande jogadora, ela é uma grande política, uma mulher inteligente, uma mulher rápida, que sabe lidar com os inimigos, porque ela, nessas temporadas todas, várias e várias vezes se sentiu escanteada politicamente, traída, mas é uma mulher resiliente, uma fênix. Eu tenho muito orgulho de fazer esse personagem. Rita Guedes Guilherme Lima / Divulgação Vogue: Você acabou de estrear uma nova temporada e já tem outra gravada. O que pode adiantar sobre esse novo momento da série e sobre os desafios de viver essa personagem por tantos anos? Rita: A gente já gravou a quinta temporada, que vai estrear mais ou menos perto das eleições. E ela fala exatamente disso, a Manuela está tentando a reeleição para o Governo do Rio. O interessante é que a gente vai conhecer os bastidores de uma eleição. E, para mim, está sendo um exercício novo, porque esses bastidores da política também são novos, entre aspas. Para entender esse mecanismo e tornar verossímil tudo o que a Manuela fala, eu tive muitas conversas com muitos políticos, muitos ex-governadores, prefeitos, pessoal do marketing político. Já falei com muita gente de secretariado, secretário da Casa Civil, foi enriquecedor. A Manuela é um personagem que eu tentei, a cada temporada, deixar mais interessante, sempre trazendo um tom por detrás do que ela está falando, porque ela é política, não entrega tudo na primeira fala, né? Você sente que tem sempre algo mais que ainda não foi revelado. Vogue: Você anunciou recentemente sua saída da série. Como foi essa decisão? Rita: Vou sempre ter um carinho muito grande pela governadora Manuela Berengher e pela série. Nesse trabalho fiz novos amigos e reencontrei outros e isso me deu um enorme prazer. Mais uma etapa cumprida. Rita Guedes Guilherme Lima / Divulgação Vogue: Além da atuação, você também tem uma carreira como produtora. Quais projetos paralelos te entusiasmaram este ano e que tipo de histórias você ainda sonha tirar do papel? Rita: Eu sempre tive muita vontade, desde que eu comecei a fazer teatro, de passar para a frente, contar as histórias que me tocaram, que me emocionaram, que me transformaram… Eu já escrevo há muito tempo: comecei com poesias, depois com crônicas, um roteiro de cinema… Isso eu estava fazendo na minha segunda novela, Olho no Olho, quando eu tinha uns 24 anos. E eu sempre tive um lado meio tímido de mostrar, de achar que estava somente colocando para fora as minhas ideias. Mas agora não. Isso é maturidade. Agora estou achando que dá um caldo o que eu escrevi. Agora eu terminei um roteiro, que é um drama/ação e romance também, uma mistura disso tudo. E estou escrevendo agora um roteiro infantojuvenil, e tem um outro que é um suspense/drama. E tem uma comédia, que eu já escrevi, sobre cinco amigos. Tenho alguns textos meus que eu penso em conseguir fazer com que, no ano que vem, as pessoas assistam. Rita Guedes Guilherme Lima / Divulgação Vogue: Você desenvolve um projeto social dando aulas de teatro em um orfanato no Rio. Como esse trabalho te transforma e o que ele representa na sua vida hoje? Rita: Dou aulas de teatro no Orfanato Santa Rita de Cássia, que fica na Praça Seca. São duas turmas: de 6 a 10 anos, e de 11 a 15 anos. Está sendo maravilhoso. Percebi que eu tinha que começar primeiro a conhecer essas meninas, fazer com que elas se aceitassem, se olhassem, que elas tivessem um olhar de admiração por elas mesmas, fazer com que elas acreditassem que seria possível. Hoje eu vejo que essas meninas que antes falavam baixinho trazem uma resposta disso. Acho que todo mundo deveria reservar algum tempo da sua vida para fazer um projeto social. Primeiro, porque faz a gente sair da nossa caixinha. Você vê um outro universo, você se sente útil de outra maneira, sem remuneração e sem nada em troca, doação pela doação mesmo. E eu te falo: dos salários que eu tenho, talvez esse seja um dos mais gratificantes, porque eu sei que eu ensinei muito para elas e quero continuar ensinando, mas elas me ensinaram muito mais. Eu saí do meu universo e entrei no universo delas. São só meninas, é muito maravilhoso, porque consigo tratar de certos temas mais femininos, orientar elas, fazer com que elas saibam se portar diante de uma possível agressão, se tornarem mulheres fortes e sem ter medo de falar quando alguma coisa não está bem. Vogue: Olhando para seu último ano, quais foram suas maiores conquistas pessoais e profissionais? E quais foram os principais desafios? Rita: O ano de 2025 foi muito revelador, muito importante. Sinto que tive uma grande mudança interna, de direção de vida, de direção de carreira, de mais maturidade, de muitas revelações no âmbito pessoal — boas e muitas nem tão boas assim, mas importantes para eu encarar com força e com coragem, como eu encarei. Foi um ano de virar páginas, de abandonar velhos hábitos, velhas situações que já não estavam servindo para o meu propósito de vida daqui para frente. Profissionalmente, eu consegui concluir mais uma temporada de Arcanjo Renegado. Terminei alguns roteiros que eu estava escrevendo e que ainda precisava finalizar, isso já me deixou bem satisfeita. E eu acho que o desafio maior nesse ano foi interno. Foi eu passar por todas essas tribulações que me aconteceram de uma maneira muito resiliente. Isso me fez ficar muito orgulhosa de quem eu sou e do que eu construí até agora. Vogue: E daqui em diante o que você espera conquistar? Há algo que você esteja particularmente ansiosa para viver? Rita: Espero fazer uma vilã, que é o meu grande desejo. Espero também que, pelo menos, um dos meus projetos eu consiga produzir, seja em série ou cinema. E eu espero, ainda, que, entre as meninas a quem eu dou aula de teatro, pelo menos uma delas possa ser chamada para fazer um trabalho na TV, que é o grande desejo delas. Estou ansiosa para viver um ano de colheita, um ano de coisas positivas, de renovação. Eu espero ver um mundo melhor, e eu sei que vai ser! Vogue: Se tivesse que definir o seu momento atual em uma palavra, qual seria e por quê? Rita: Eu colocaria liberdade. Eu adoro essa palavra, que traduz um sentimento que é muito fácil de a gente perder, na maioria das vezes, inconscientemente. E essa palavra me define agora, define o meu momento porque eu tomei algumas atitudes, algumas difíceis, que me levaram a esse estado de liberdade. E as atitudes são muito importantes, porque somente as atitudes certas fazem com que a gente caminhe. Elas são o nosso combustível para irmos para frente.
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