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Aline Midlej: "A arte da palavra pode mudar o mundo"

Vogue | Moda, Beleza, Desfiles, Lifestyle e Celebridades [Unoff… February 18, 2026
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Quase cinquenta anos depois da morte de Carolina Maria de Jesus, a liberdade de uma mulher negra ainda precisa cavar espaço para existir com a majestade que ela mereceu e só pode viver com um reconhecimento pós-morte. E digo que viveu porque, sim, é possível renascer em forma de legado. E eu representei essa herança numa Sapucaí que entoou em uníssono a palavra como arma contra a tirania. Ser livre nas palavras condenou uma das maiores escritoras brasileiras ao apagamento que vai sendo apagado aos poucos. Carolina viveu boa parte da sua vida na favela do Canindé, na zona norte de São Paulo, sustentando a si mesma e a seus três filhos como catadora de papéis. Em 1960, teve seu diário publicado com o auxílio do jornalista Audálio Dantas. “Quarto de Despejo”, que escancarou a fome a miséria que muitos preferiam ignorar (algo muito atual) fez um sucesso estrondoso e chegou a ser traduzido para mais de dez línguas. A autobiografia de forma crua e brilhante mostra como a pobreza pode desumanizar alguém. Quando descoberta e vista pelo mercado editorial, Carolina foi sufocada, passando a ser definida pelos olhos dos interesses estéticos e comerciais da época (algo um tanto atual). Reconstruir e manter a memória de quem foi capaz de vencer a fome, descrevendo o país, com uma literatura que seguia as normas cultas da vivência, é contar a devida história do Brasil. E enquanto a história é reescrita, a arte do Carnaval constrói uma história imaginada que poderia ser real: uma Academia Carolina Maria de Jesus de Letras, num castelo dourado que é templo simbólico. Na alegoria estavam mulheres que transformam o Brasil contemporâneo através da palavra que navega livre nas mãos e pensamentos de quem, hoje, pode escrever e mudar a história com suas vestes e cabelos. O imponente e ao mesmo tempo leve fardão que usamos como imortais dessa honrosa Academia pretendeu “colocar Carolina num lugar celeste, de mérito, por isso o véu, que representa o lenço que saía de sua cabeça e a elevava a um lugar celeste. Um lugar onde, merecidamente, é dela. Um lugar pra além dos nossos olhos, sagrado”, me contou o carnavalesco Edson Pereira. Representação alegórica de Carolina Maria de Jesus, no desfile da Unidos da Tijuca Instagram/@gresutijuca Em seu enredo a escola Unidos da Tijuca quis contar uma trajetória que não tem foco na miserabilidade de Carolina Maria de Jesus, dando a volta em obviedades estéticas e retóricas que grupos marginalizados costumam protagonizar. Ofertou ao público uma outra reflexão conceitual sobre intelectualidade e relevância. “A Carolina é uma pensadora. Com as ferramentas que tinha, apesar da precariedade material, que não é oposição pra que tenha sido uma leitora do mundo. Apesar de todo preconceito linguístico, fez literatura e hoje faz a cabeça de várias mulheres”, me explicou Fernanda Felisberto, consultora de enredo e de quem recebi o convite para estar nesse último carro alegórico em que a escritora aparece de cabelos solto, depois de passar décadas aprisionada naquela imagem com o lenço na cabeça que rendia mais apelo comercial, segundo seu antigo editor. E lá estava eu, de cabelos soltos, com outras mulheres admiráveis, em outras profissões, que podem transformar o mundo com seus dons da palavra. Enquanto nascem muitas Carolinas mais livres para ser e escrever a própria história, outras continuam condenadas pela cor da pele, CEP e CPF. Que levemos esse grito de liberdade e respeito que tomou a avenida para as nossas casas e cotidianos, criando um novo jeito de viver, com um novo final possível, assim como nos mostrou o Palácio da Eternidade para Carolina, a Imortal. Aline Midlej durante desfile Acervo Pessoal “Por ser livre nas palavras Condenaram meu saber Fui a caneta que não reproduziu A sina da mulher preta no Brasil...” Nota: Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Vogue Brasil. Canal da Vogue Quer saber as principais novidades sobre moda, beleza, cultura e lifestyle? Siga o novo canal da Vogue no WhatsApp e receba tudo em primeira mão!

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