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Por que o Carnaval pode nos deixar mais permissivos com nossas escolhas?

Vogue | Moda, Beleza, Desfiles, Lifestyle e Celebridades [Unoff… February 17, 2026
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Todos os anos, quando o Carnaval chega, algo muda no ar. Não é só o brilho, a música ou as fantasias. É como se a própria cidade dissesse: por alguns dias, você pode ser um pouco diferente de quem costuma ser. A pergunta que sempre aparece depois é inevitável: por que fazemos coisas que jurávamos que nunca faríamos? E por que, às vezes, decisões tomadas no meio da festa parecem tão certas na hora e tão confusas depois? A psicanálise ajuda a entender que não se trata apenas de “perder a cabeça”. Em Psicologia das Massas e Análise do Eu, Sigmund Freud explica que, quando estamos em grupo, algo em nós se transforma. Sozinhos, temos nossos limites, nossas culpas, nossa imagem de quem queremos ser. No meio de uma multidão, identificados com um bloco, com amigos, com a energia coletiva, esses limites podem se afrouxar. Não desaparecem, mas ficam menos rígidos. A sensação é de amparo: se todo mundo está fazendo, por que eu não faria? Isso não significa que o Carnaval seja um surto coletivo ou um colapso moral. Há também um lado saudável nessa experiência. Durante o ano inteiro somos cobrados a performar, produzir, dar conta de tudo, manter coerência. A festa abre uma brecha. Permite experimentar outras versões de si, brincar com a própria imagem, testar desejos que estavam guardados. Para muita gente, isso tem um efeito quase libertador. Não é só sobre beijo na boca ou noites viradas. É sobre sentir-se menos controlado, menos observado, menos preso a uma identidade fixa. Ao mesmo tempo, é preciso reconhecer que essa liberdade pode trazer consequências. Há quem termine um relacionamento em meio à euforia e, semanas depois, queira voltar. Há quem ultrapasse limites que, em outro contexto, consideraria importantes. O que muda não é apenas a circunstância externa, mas a forma como cada um se sente por dentro. No calor da festa, a decisão pode parecer um gesto de coragem, de autenticidade, de “agora eu vou viver o que quero”. Quando a rotina volta, surgem outras perguntas, outros valores, outras necessidades. Isso não é hipocrisia. É a prova de que somos feitos de partes que nem sempre concordam entre si. Queremos estabilidade e intensidade. Queremos segurança e novidade. O Carnaval não cria esses conflitos, ele apenas os deixa mais visíveis. A energia coletiva funciona como um amplificador. O que já existia dentro da pessoa ganha volume. Evitar um tom conservador aqui é fundamental. Não se trata de condenar a permissividade nem de exaltar qualquer excesso como sinônimo de liberdade. A história mostra que sociedades muito rígidas tendem a produzir explosões ainda maiores. Um período em que certas regras se flexibilizam pode funcionar como espaço de respiro. Pode ser uma maneira de dar vazão a desejos que, se totalmente sufocados, retornariam de outras formas, talvez mais dolorosas. Por outro lado, também não faz sentido romantizar tudo o que acontece na festa como se ali estivesse o “verdadeiro eu”. Não existe um eu puro esperando o Carnaval para aparecer. Somos sempre atravessados por influências, expectativas, medos e desejos. No meio da multidão, nos identificamos com algo maior e isso nos transforma temporariamente. Quando a música para, cada um volta a lidar com as próprias escolhas. Talvez a questão mais interessante não seja o que acontece na avenida, mas o que fazemos com isso depois. Algumas experiências revelam algo importante sobre nós e nos ajudam a ajustar a vida fora da festa. Outras mostram limites que precisam ser melhor compreendidos. Em vez de julgar, a psicanálise convida a perguntar: o que isso diz sobre mim? O que eu estava buscando naquele momento? O Carnaval, no fim das contas, não é apenas sobre permissividade ou libertinagem. É sobre o quanto somos influenciáveis pelo laço coletivo e o quanto carregamos desejos que nem sempre cabem na rotina. Ele expõe nossa ambivalência, nossa vontade de pertencer e, ao mesmo tempo, de transgredir. E talvez seja justamente por tocar nessa tensão tão humana que, ano após ano, continuamos a nos autorizar a viver esses dias como se fossem um parêntese na própria história

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