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  "title": "Autonomia: meus últimos 10 anos",
  "publishedAt": "2016-05-13T00:00:00.000Z",
  "textContent": "Outro dia uma amiga me perguntou, em meio a um grupo de gente que vive hackeando a vida:\n\n> O que vocês acham essencial para poder começar nesse mundo da autonomia?\n\nDe bate e pronto respondi que era importante aprender a dizer “não”. Perguntei quais eram os medos dela, o que ela sentia que precisava — _mesmo_ — para começar, e o que estava a segurando.\n\nOu seja, joguei uma resposta aparentemente sem pé nem cabeça. E devolvi essas perguntas abstratas — me livrei da batata quente. Claro que não funcionou.\n\nEm um segundo momento, resolvi ir aos poucos. E esse textão são essas reflexões sobre como ser autônomo, como lidar com sonhos e objetivos pessoais e profissionais. Tudo isso de um ponto muito pessoal, refletindo sobre minhas próprias escolhas nos últimos 10 anos.\n\nQuem é você: a importante pergunta que não leva a lugar nenhum\n\nPara começar a falar de autonomia é importante falar de você. Se você quer ser autônomo, é você que vai tomar todas as decisões importantes da tua vida. Desde a hora de dormir e acordar, até qual pijama vestir — se é que vai vestir algum. Se vai trabalhar ou procrastinar, guardar ou gastar, ficar em casa, ir no café ou cruzar o Atlântico. Ser autônomo é ser você. Então comecemos por aí mesmo: quem é você?\n\nEm uma conversa que tive mês passado com o Cabral, a gente falava sobre esse assunto, sobre se conhecer. E ele me disse a seguinte frase:\n\n> Você tem que se conhecer, e se definir, senão os outros vem e te arrancam pedaço.\n\nClaro que nesse sentido o _se definir_ não é algo duro ou imutável, mas é importante saber o que você quer da vida. Se não souber, os _outros_ vão vir e… tirar pedaço — ou seja, você pode acabar não fazendo o que você queria fazer. Não vai ser autônomo, vai acabar sendo o que os outros querem que você seja.\n\nEntão talvez seja melhor parar tudo e ir atrás daquele sonho, daquele projeto legal, fazer aquelas coisas que estão há anos guardadas em um canto do nosso coração (mas que nunca tivemos condições de abraça-las). Ser autônomo deve ser isso!\n\nDe maneira superficial, é isso sim. Mas até chegar lá tem muita pedra no caminho. Vejo muita gente com medo de começar, medo de largar o que já tem para mergulhar nessa caixinha maravilhosas de sonhos:\n\n> Tenho medo de largar meu emprego para me arriscar em um mar desconhecido — ainda não sei se estou preparado.\n\nE aí encontramos perguntas mais interesantes. Você quer se jogar nesse _mar_ para chegar onde? Como diz o ditado, se não souber para onde está indo, qualquer caminho vai servir. Se quer se jogar em algo é importante ter um norte. Se quer se jogar no mar da autonomia, não tem como fazer isso sem se perguntar qual é o seu próprio norte.\n\nE, mais: O que exatamene é esse mar? É ser freelancer? É a vida? É o Brasil? É outro país ou continente? É ser garçom ou _dog walker_ em outro continente? É conseguir um emprego qualificado na gringa? É tocar seus projetos de garagem?\n\nNormalmente pulamos todas essas perguntas e olhamos para as questões mais pragmáticas:\n\n _O que preciso fazer antes de começar?_\n _Quanto dinheiro tenho que guardar?_\n _Como começar, de fato, a fazer as coisas?_\n\nSe teus pensamentos empacarem nesse pragmatismo, a resposta para todas essas perguntas é a mesma: _nada_. O que você precisa mesmo é começar.\n\nMas… começar o quê?\n\nComecemos com um exemplo bobo: O que você precisa para correr uma maratona? Precisa começar a correr. Claro que você não vai correr os 42km de uma maratona logo no primeiro dia. Mas vista um tênis, saia de casa e vá correr. Corra 2km, 3km… 10km que seja. Sem começar, sem correr o primeiro quilômetro, você nunca vai chegar na maratona.\n\nNesse exemplo bobo só precisamos de uma decisão, _correr uma maratona_, e uma iniciativa, _sair para correr_ (nem que seja só um pouquinho). Mas alguém pode dizer: para correr uma maratona tem que ter tênis bom, tem que saber de técnica de corrida, tem que se hidratar, tem que ter acompanhamento de treinador e nutricionaista etc. Certo, talvez precise mesmo. Mas essas coisas não vão fazer diferença no primeiro quilômetro. Então comece logo a correr. Quando as necessidades forem surgindo, você vai saber do que precisa.\n\nE assim, quando as necessidades surgirem, não virão transvestidas de perguntas hipotéticas e abstratas como _o que preciso saber ou fazer antes de correr uma maratona?_ Serão necessidades reais, tangíveis, paupáveis. Necessidades sentidas pela experiência individual, e não deduzidas pela lógica externa. Será tua boca secando no quilômetro 8, tua fraqueza batendo no quilômetro 21, teu joelho reclamando na sétima semana e assim por diante.\n\nO ponto aqui é que se preocupar com perguntas como _do que preciso para fazer x, y ou z_ é muito menos importante do que começar, de fato, a fazer _x, y ou z_. Se você assumir que não falta nada para você começar, só falta começar.\n\nComeçar e se encontrar\n\nMuitas vezes vejo pessoas que já conseguem esboçar algo sobre o que querem _começar_, mas logo se paralizam com a pergunta:\n\n> Onde conseguir os primeiros trabalhos? \n\nE, claro, essa pergunta faz muito sentido. É quase impensável, utópico demais, romper com o dinheiro nos dias de hoje. Então, sim, precisamos de dinheiro, de algo como um trabalho.\n\nMas, sendo pentelho, tem uma coisa muito errada nessa pergunta. Os trabalhos não são coisas que estão aí, jogados ao léu pela mãe natureza, misteriosos, escondidos, discutidos em seitas secretas que pedem, para te aceitar, _x_, _y_ e _z_ no teu GitHub ou LinkedIn. \n\nPara quem é autônomo, os trabalhos são coisas que as pessoas mesmos criam. Então, se por trás dessa pergunta tem uma vontade de _encontrar_ oportunidades em projetos fodas, colaborativos, na gringa, trabalhando remotamente, fazendo o bem (seja lá o que for isso) e tudo mais _hype_ possível, a única resposta seria: ache problemas que você possa resolver, resolva-os ou ofereça-se para resolve-los.\n\nComece, simples assim: comece. Faça e refaça o que você sabe fazer, quantas vezes puder — é como um _kata_): vai te fazer melhor, te ajudar a apriomorar tuas próprias habilidades, sejam elas quais forem. Isso vai fazer você resolver melhor ainda os problemas que você já resolve bem.\n\nMas faça isso e mostre que fez, tuíte, poste no Facebook, mostre para a mãe e para o papagaio, comente com os amigos, faça um blog e conte tuas experiências. Viva tuas habilidades, e mostre-as sem pudor. Isso é tremendamente importante.\n\nNo caminho, se pergunte: qual problema, problema de quem, isso tudo resolve (mesmo que só potencialmente)? Você vai ver, claro que repetir essas coisas como um _kata_ vale muito para a vida de vocês. Talvez não ajude muito a vida de mais ninguém. Mas não se preocupe, comecem. O começo pode não te trazer dinheiro, mas tem três efeitos colaterais cruciais:\n\n Começar algo te faz melhor nas habilidades que você já tem\n Começar algo e contar para os quatro cantos do mundo te ajuda a ser conhecido pelo o que você oferece\n Começar algo te ajuda a definir quem você é\n\nÉ importante se defnir? Muito. Mas _começar algo é a melhor forma de se definir_.\n\nSelf-jabá de exemplo\n\nO Brasil tem muita discussão política rolando, e isso dá margem para muitas ideais, úteis, inúteis, chatonas, engraçadas etc. Muitas dessas ideais não são necessariamente projetos que vão trazer grana, ao menos não em um primeiro momento. Mas podem ser ideias que ajudam a gente a ser visto pelas nossas qualidades e ideias, pelo o que sabemos fazer. Falo isso dando como exemplo o InternetSemLimites, projeto com o qual me envolvi em abril de 2016.\n\nSe acharem que é muito self-jabá, pulem os próximos parágrafos. O que quero exemplificar com essa história é bem simples: _começar_ não é um bicho de sete cabeças.\n\nQuando os grandes provedores de acesso a internet ensairam um movimento de implementação de franquias de dados, o Jean Luca (que eu não conhecia) começou um repertório no GitHub listando provedores que se comprometeram a não aderir tais franquias. Eu achei a ideia sensacional, mas achei que dava para melhorar:\n\n1. Dava para (tentar) automatizar um pouco mais a atualização da lista, para que quem fosse cuidar não se  preocupasse com a formatação do documento a cada novo provedor\n2. Com isso dava para (tentar) deixar a lista mais acessível para quem não usa GitHub\n3. Senti ainda que podia (tentar) abrir o envio das sugestões para que não-programadores pudessem contribuir também (assumindo que só quem é mais versado na nerdice saberia mandar um _pull request_)\n4. E, por fim, dava para (tentar) fazer uma API para que mais gente e mais iniciativas usassem os dados da lista colaborativa\n\nEm um dia fiz um sistema gerenciador de conteúdo que começava a resolver esses quatro problemas. Só começava. Aliás, fiquei até com medo de que eu só estivesse complicando ainda mais as coisas. Para eu matar o ponto _3_ (qualquer um poder contribuir), criei um monstro. O código era horroroso, e só resolvia uma das quatro coisas que eu achava que dava para melhorar. Mas, pelo menos, funcionava.\n\nNo dia seguinte o Felipe (que eu também não conhecia) implementou um _script_ que automatizava o processo de gerar a lista a partir do sistema que eu havia criado. Com isso ele automatizou todo o processo de atualização da lista — matou o ponto _1_.\n\nNo outro dia, o Leonardo pegou a marca que o Claudio tinha feito e o projeto gráfico que o Pedro tinha sugerido e lançou um site para o InternetSemLimites, site que buscava os dados na API do sistema que eu fiz — matou o ponto _2_. (Como vocês já devem imaginar, não, eu não conhecia nenhum dos três.)\n\nMais uns dias se passaram e mais duas pessoas (até então desconhecidas para mim), o Bruno e o Ronniery, disseram que estão usando a API em dois aplicativos distintos, para dispositivos Android — mataram o ponto _4_.\n\nEm três semanas a iniciativa teve trocentas visitas por dia, 1500 acessos únicos só no site. Falei o quanto pude do projeto para todo mundo com quem convivo. Lotei meu Twitter com posts do assunto. Falei da parte nerd do projeto, pedi ajuda e discuti de",
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