Uma tradução de "Afrabia: Africa and the Arabs in the New World Order", de Ali A. Mazrui (1992)

giaco 🇵🇸🇾🇪🇱🇧 June 23, 2026
Source
Ali al-Amin Mazrui em Londres, 1979. Publicado originalmente em 26 de dezembro de 2024. --- A tradução que apresento na sequência tem um significado muito especial. Esta semana, recebi a carta de aceite para uma (improvável) comunicação na conferência Africa-Asia: A New Axis of Knowledge 3, a ser sediada na Universidade Cheikh Anta Diop em Dakar, Senegal, no junho próximo. Improvável pelas questões materiais que obviamente se impõem — mas este não é o ponto. De grande relevo é o fato das inquietações que inspiraram minha proposta de comunicação tiveram substancial influência, sem dúvidas, de minhas leituras do intelectual público queniano Ali al-Amin Mazrui (1933-2014), que merecerá um texto à parte dedicado a sua brilhante — e polêmica — trajetória. “Polêmica” é um termo forte, mas que talvez faça jus aos ferrenhos debates intelectuais que travou com nomes como Molefi Kete Asante e Henry Louis Gates Jr. — em momentos distintos, e por razões diferentes, conquanto inter-relacionadas com a visão “mazruiana” (para usar um termo adotado por Seifudein Adem)1 do ideal Pan-Africano. Visão esta informada pela própria posicionalidade de Ali Mazrui quanto a sua ascendência de uma tradicional família muçulmana leste-africana, como explorei brevemente em um esboço de estudo,2 mas que (e, talvez, justamente por isso) possibilita, segundo creio, ousar propor visões não-deterministas e não-binaristas da africanidade. A “Afrábia” de Mazrui idealiza uma visão transcontinental do Pan-Africanismo. Seria a Península Arábica igualmente “africana”? O que a longuíssima duração histórica tem a dizer sobre as relações simbióticas afroasiáticas implicadas na proximidade geográfica, étnica e cultural entre ambos? E acrescento: em que a perspectiva, digamos, afrábica, pode contribuir para o campo da História Comparada, por exemplo — ponto de minha possível comunicação na conferência de Dakar? O texto abaixo, em tradução direta do inglês (idioma tomado por Mazrui para sua extensa produção bibliográfica) é um primeiro passo em direção à reflexão acerca de todas essas intrigantes questões. Contudo, a retroprojeção do conceito deve ser considerada com cautela, na medida em que Ali Mazrui escreve, fundamentalmente, sobre as questões de seu tempo — que também são as do nosso tempo: a (então iminente) queda do apartheid sul-africano, e a continuidade de outros apartheids, como o promovido pelo Estado ilegítimo de Israel. Com muita precisão, Mazrui olha para o futuro, e a necessidade da criação de uma verdadeira “entente afroárabe” a fim de combater a reorganização do identitarismo (sim, o termo é esse) militante da branquitude global, sempre disposta ao genocídio das sociedades que por tanto tempo colonizou. Da África do Sul à Palestina, a luta continua. من النهر إلى البحر --- --- Afrábia: a África e os Árabes na Nova Ordem Mundial Ali A. Mazrui (1933-2014) Originalmente publicado em: MAZRUI, Ali A. Afrabia: Africa and the Arabs in the New World Order. Ufahamu: A Journal of African Studies, Vol. 20, n. 3, pp. 51-62, 1992. Permitam-me começar este ensaio sobre relações afroárabes com dois modelos de reconciliação histórica envolvendo outras sociedades. O modelo angloamericano delimita a transição da hostilidade à fraternidade nas relações entre os povos da Grã-Bretanha e dos Estados Unidos, do final do século 18 à Primeira Guerra Mundial. Existem lições relevantes a serem aprendidas em prol das relações entre árabes e africanos, historicamente? O segundo modelo de reconciliação traça a transição da inimizade à amizade entre os Estados Unidos e o Japão, de 1941 aos anos 1990. Há outras lições a serem aprendidas neste modelo americano-japonês, que também sejam pertinentes às relações afroárabes em perspectiva histórica? Vejamos mais proximamente estes dois modelos de reconciliação. Foi, claro, em 1776 que os americanos iniciaram sua rebelião contra os britânicos. Tornou-se a guerra de Independência americana. Por ao menos um século, os britânicos foram o povo que os americanos mais amaram odiar. Isto incluiria uma guerra adicional entre americanos e britânicos, em 1812. Hoje, a Grã-Bretanha é, talvez, o aliado mais próximo dos Estados Unidos — possivelmente mais próximo de Washington do que mesmo Israel ou o Canadá. As feridas de 1776 e 1812 entre americanos e britânicos estão mais do que curadas. Um sentido novo e mais profundo de identidade compartilhada foi forjado. Em 1964, uma revolução ocorreu em Zanzibar contra um governo percebido como árabe, e uma monarquia percebida como omani. Um amargo derramamento de sangue e um ódio peçonhento se estabeleceram entre árabes suailizados, de um lado, e suaílis arabizados, de outro. A arabofobia, em partes de África Oriental, atingiu novos patamares. A afrofobia, em partes do mundo árabe, também era inconfundível.  Em verdade, levou cerca de um século para que americanos e britânicos parassem de se odiar — e mais ainda para que se tornassem amigos próximos.  Nas relações entre africanos e árabes, teremos também de esperar um século para que as feridas do passado sarem? Seria o modelo relevante aquele entre Estados Unidos e Grã-Bretanha — em que o perdão foi vagaroso mas, quando veio, foi profundo? Ou o modelo relevante é aquele entre o Japão e os Estados Unidos? Em 1941, o Japão cometeu traição e bombardeou Pearl Harbor sem declarar guerra aos Estados Unidos da América. O Presidente Roosevelt o descreveu como “um dia que que viverá na infâmia”. Os americanos tinham bons motivos para odiar os japoneses. Em agosto de 1945, os Estados Unidos lançaram bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki. Os japoneses se tornaram as primeiras vítimas da era nuclear — massacrados e, em muitos casos, mutilados por gerações. Os japoneses tinham bons motivos para odiar os americanos. Ainda assim, em menos de uma única geração, os Estados Unidos se tornaram grandes aliados políticos e monumentais parceiros comerciais. O perdão entre americanos e japoneses foi rápido — mas foi superficial? O perdão entre a Grã-Bretanha e os EUA foi lento — mas foi profundo?  O perdão entre árabes e africanos pode residir em algum lugar entre o modelo EUA-Grã-Bretanha (devagar, mas profundo) e o modelo EUA-Japão (célere, mas raso).  A reconciliação afroárabe envolve não apenas memórias da revolução de Zanzibar mas, ainda mais fundamentalmente, memórias do envolvimento árabe no tráfico de escravos em África. A dor do passado pode ser esquecida?  Tendências globais na Nova Ordem Mundial ditam velocidade na reconciliação e integração afroárabe. Continuidades históricas e contiguidades geográficas podem conferir grande profundidade às relações futuras entre a África e o mundo árabe. Mas passos conscientes devem ser dados em busca de quaisquer novas formas de solidariedade. Perdoar o passado é uma coisa: forjar um novo futuro é um maior imperativo. As muralhas ideológicas que dividem a Índia e China do resto do Sudeste Asiático estão começando a cair. As muralhas ideológicas que dividem a Europa Oriental da Europa Ocidental têm erodido. As muralhas econômicas que separam os Estados Unidos, México e Canadá também estão caindo. Também cairão as muralhas que separam a África do mundo árabe, como parte da Nova Ordem Mundial? É discutível que algumas das muralhas que separam africanos e árabes são tão artificiais quanto as divisões que separaram eslavos e alemães, na Europa. Houve muita discussão sobre a artificialidade do deserto do Saara como divisor entre a África Árabe e a África Negra. Ainda mais artificial é o Mar Vermelho como divisor. Agora que estamos a examinar a Nova Ordem Mundial, não deveríamos reavaliar estas velhas fronteiras e redefinir nossas identidades? --- O conceito de “AFRÁBIA” Os franceses examinaram sua relação especial com a África e cunharam o conceito de EURÁFRICA como base de cooperação especial. Por nossa vez, devemos examinar a ainda mais antiga relação especial entre a África e o mundo árabe, e chamá-la de AFRÁBIA. Afinal, a maioria dos árabes está, agora, no continente africano. A maior parte das terras árabes está localizada em África. Há mais muçulmanos na Nigéria do que em qualquer outro país árabe, inclusive o Egito. Em outras palavras, a população muçulmana da Nigéria é maior do que a população do Egito. O continente africano, como um todo, está em vias de se tornar o primeiro continente do mundo com uma maioria muçulmana absoluta.  Mas a AFRÁBIA não é mero caso de expansão de línguas e solidariedade religiosa. Novas comunidades étnicas inteiras foram criadas por esta dinâmica. A emergência de grupos cuxitas, como os somalis no Chifre da África, é um caso exemplar. Omã, Iêmen e Arábia Saudita também foram instrumentais ao nascimento de grupos étnicos inteiros nas margens orientais de África. A cultura e as cidades-estado suaílis capturaram uma época inteira de história e legado africanos. Omã é central à história moderna do patrimônio suaíli. Os bravos povos da Eritreia também são parte da ponte da AFRÁBIA. Mesmo os berberes são um caso especial de AFRÁBIA. O próprio nome “África” possivelmente se originou de uma língua berbere, e foi utilizado inicialmente em referência ao que hoje é a Tunísia. O continente adquiriu seu nome do que hoje é a “África árabe”. Há argumento mais forte em prol da AFRÁBIA? Além disso, houve migrações e movimentos populacionais entre África e Arábia ao longo dos séculos. Há evidência de assentamentos árabes em África Oriental e no Chifre da África muito antes do nascimento do Profeta Muhammad (S.A.A.S.). E o fato de que o primeiro muezim foi Seyyidna Bilal evidencia que havia presença africana pré-islâmica em Meca e Medina. Bilal estava lá antes de se converter — símbolo de uma ligação árabe anterior com a África. AFRÁBIA é um fenômeno pré-Hégira. Há o impacto da língua na AFRÁBIA. A língua com o maior número de falantes individuais, no continente africano, ainda é o árabe. As mais influentes línguas indígenas africanas são o suaíli (kiswahili), na África Oriental, e o hauçá, na África Ocidental — ambas profundamente influenciadas tanto pelo árabe quanto pelo Islã, uma manifestação da AFRÁBIA.  Elos linguísticos entre a África e a Arábia são, de fato, muito mais antigos que o Islã. Todo mundo está ciente de que o árabe é uma língua semítica, mas poucos percebem que o amárico, a língua dominante na Etiópia, também o é. De fato, os historiadores se dividem quanto a se as línguas semíticas se originaram em África, antes de cruzarem o Mar Vermelho, ou na Península Arábica, tendo mais tarde o cruzado até a África. As próprias incertezas são parte da realidade da AFRÁBIA. Na Nova Ordem Mundial, dois processos se desenvolvem, cada um visando redefinir o estado-nação. As forças centrífugas criam fragmentação e separatismo. Os mais dramáticos exemplos foram a desintegração da União Soviética. As forças centrípetas criam comunidades econômicas e políticas maiores. O ano de 1992 deveria testemunhar uma mais profunda integração econômica da Comunidade Europeia, provavelmente acompanhada da admissão de mais estados-membros antes do final do século. No mundo árabe, os mais graves casos de fragmentação centrífuga interna em países são o Iraque, Líbano e Sudão. O Iraque enfrenta opressão central e separatismo étnico. Os curdos e os xiitas estão às armas, às vezes literalmente. O Líbano ainda não curou suas divisões sectárias. E o Sudão está partido, não apenas pela guerra civil no Sul, mas também pelas tensões religiosas e políticas no Norte.  A fragmentação centrífuga em África se não apenas o Sudão, mas também o separatismo étnico na Etiópia, Libéria, Somália, Senegal e – com menor intensidade — mesmo na Nigéria. Além das tendências centrífugas nacionais, há forças regionais mais amplas de fragmentação, tanto em África quanto no mundo árabe. A Crise do Golfo de 1990-91 foi um dos mais divisivos eventos na história recente árabe. Um cenário impensável ocorreu em agosto de 1990, quando um país árabe engoliu outro completamente — a breve conquista do Kuwait pelo Iraque. Outro cenário impensável ocorreu em 1991 — quando bombas árabes e mísseis árabes bombardearam cidades árabes. As feridas da divisão ainda estão por curar no mundo árabe. A África não adentrou os anos 1990 tão profundamente dividida, a nível regional, quanto o mundo árabe. Mas a situação econômica de África nos anos 1990 tem sido particularmente severa, e a vontade política em busca da unidade africana foi ainda mais enfraquecida. Ademais, dois felizes desenvolvimentos em África, em 1990-91, tiveram a consequência não-intencional de diluir o compromisso pan-africano. O começo do fim do apartheid é, de quase toda perspectiva, uma boa notícia para a África e a raça humana. Mas a luta contra o apartheid foi, por muito tempo, uma força unificadora em África — ao menos tão mobilizadora quanto a a luta contra o Sionismo foi para o mundo árabe. Enquanto o Sionismo ainda é poderoso e desafiador, o apartheid está começando a ruir. O Pan-Africanismo poderá pagar um preço por seu próprio sucesso. O fim do apartheid poderá privar o Pan-Africanismo de uma grande força unificadora. Outra feliz tendência em África, em 1990-91, foi a luta por maior democracia — de Dar-es-Salaam a Dakar, de Lusaka a Lagos, de Algiers a Kinshasa. Líderes africanos estão sendo cobrados quanto a sua responsabilização. Enquanto o movimento pró-democracia em África tem sido um instigante desenvolvimento, ele tem focado as mentes dos cidadãos em questões domésticas de cada país, em vez de questões continentais de unificação. O efeito regional do ativismo democrático tem sido, como um todo, centrífugo — ao menos, a curto prazo. Mas enquanto a África e o mundo árabe têm se dividido internamente, no tempo atual, em termos de política contemporânea, ambas regiões sobrepostas estão interculturalmente ligadas pelas forças da história e da geografia. De fato, houve um tempo quando o que chamamos de Península Arábica era unha e carne de África, fisicamente. É para estas lições geofísicas da AFRÁBIA que devemos, agora, nos voltar. --- Continente Negro, Mar Vermelho? Uma de nossas teses centrais, nesta parte do artigo, é que o Mar Vermelho não tem o direito de dividir a África da Arábia. Onde, então, está a África? O que é África? Quão sensíveis são seus limites? Ilhas podem ser muito distantes de África e, ainda assim, ser consideradas parte de África — desde que não muito próximas de outras terras. Mas uma península pode ser, arbitrariamente, desafricanizada. Madagascar é separada do continente africano pelo Canal de Moçambique, de 500 milhas de extensão. O Grande Iêmen, por outro lado, é separado do Djibuti pela distância do arremesso de uma pedra. Ainda assim, Madagascar é politicamente parte de África, e o Grande Iêmen não. Muito da produção acadêmica africana pós-colonial abordou a artificialidade das delimitações dos Estados africanos contemporâneos. Mas pouca atenção foi dada à artificialidade dos limites do próprio continente africano. Por que a África do Norte deveria terminar no Mar Vermelho, quando a África Oriental não termina no Canal de Moçambique? Por que Tananarive é uma capital africana, e o Adem não? Discutiu-se, em África, se o Saara é um abismo ou um conector. O Pan-Africanismo continental afirma que o Saara é um mar de comunicação, em vez de um abismo de separação. Mesmo assim, há quem argumente que a África do Norte não é a “África de verdade”. Por quê? Por que é mais como a Arábia? Mas neste caso, por que não empurrar a delimitação da África do Norte mais a leste, para incluir a Arábia? Por que não recusar a reconhecer o Mar Vermelho como um abismo, assim como o Pan-Africanismo recusou a conceder tal papel ao deserto do Saara? Por que não reconhecer que o continente africano não termina na extremidade sul do Saara, tampouco à margem oeste do Mar Vermelho? A África não deveria se mover em direção ao norte, ao Mediterrâneo, e a nordeste, ao Golfo Pérsico? Alternativamente, deveria este novo conceito se chamar AFRÁBIA? O mar mais redundante da história africana talvez seja o Mar Vermelho. Esta fina linha de oceano foi tida por mais relevante para definir onde a África termina do que toda a evidência da geologia, geografia, história e cultura. A fronteira nordeste de África foi definida por uma faixa de água face às massivas evidências ecológicas e culturais do contrário.3 O problema remonta a três ou cinco milhões de anos atrás, quando três rachaduras surgiram na parte oriental de África. Como Colin McEvedy afirma: “Uma rachadura gerou a Arábia, criando o Golfo de Adem e o Mar Vermelho, e reduzindo a área de contato entre a África e a Ásia ao Istmo de Suez”.4 Antes da abertura do Mar Vermelho, houve a abertura da África para criar o Mar Vermelho como divisor. Três rachaduras ocorreram na crosta africana – ainda assim, apenas à que resultou num mar se permitiu “desafricanizar” o que estava além do mar. As outras duas rachaduras resultaram em “vales do rift”, trincheiras de trinta milhas de largura. Os rifts ocidental e oriental deixaram o continente africano intacto – mas a emergência de uma faixa de água chamada de Mar Vermelho resultou na secessão geológica de África. Mas aquilo que uma falha geológica uma vez dividiu, as forças da geografia, da história e da cultura têm tentado desde então reunir.  Quem são os Amhara da Etiópia, senão um povo provavelmente descendente do sul da Arábia? O que é o amárico, senão uma língua semítica? O que é uma língua semítica, senão um ramo da família afro-asiática de línguas? A língua paterna semítica nasceu em África e cruzou o Mar Vermelho? Ou era originalmente da Península Arábica, e então chegou a povos como os Amhara, Tigrínios e Hauçá em África? O quanto são os Somalis uma ponte entre a Arábia e a África? Todas essas são questões linguístico-culturais que evocam o problema de se a secessão geológica da Arábia, de três a cinco milhões de anos atrás, está em processo de ser neutralizada pela AFRÁBIA, a íntima integração cultural entre a Arábia, o Chifre e o resto de África. No campo da linguística, certamente não é fácil determinar onde as línguas indígenas africanas terminam e as tendências “semíticas” começam. Houve um tempo em que tanto camitas quanto semitas eram tidos como basicamente estranhos à África. Devidamente, camitas foram entendidos como uma categoria fictícia – e os povos representados pelo termo (como os Tutsi) foram aceitos como indiscutivelmente africanos. E quanto aos semitas? Eles existiram, sem dúvidas, na história mundial. Mas são eles “africanos” que cruzaram o Mar Vermelho – como Moisés, em fuga do Faraó? Ou são eles semitas originalmente “árabes” que penetraram em África? Estes agonizantes problemas de identidade seriam parcialmente resolvidos do dia para a noite se a Península Arábica fosse parte indissociável de África, ou se uma nova solidariedade da AFRÁBIA se enraizasse. --- Sobre Cultura e Continente O esforço cultural para reintegrar Arábia e África após a divisão geológica de cinco milhões de antes atingiu uma nova fase com o nascimento e expansão do Islã. A conquista árabe do Norte da África foi um processo de superação da separatividade do Mar Vermelho. Processos gêmeos engendraram no Norte da África – islamização (uma conversão religiosa ao credo de Muhammad) e arabização (uma assimilação linguística da língua dos árabes). Em tempo, a grande maioria dos norte-africanos se viu como árabe – não menos que os habitantes da Península Arábica. Em resumo, a islamização e arabização do Norte da África foram, mais uma vez, força de contrapeso a tentar conter o separatismo geológico perpetrado pelo nascimento do Mar Vermelho, milênios antes. Norte-africanos foram lançados num dilema. São eles tão africanos quanto os povos ao sul? O que ainda está por ser pautado é se os árabes a leste do Mar Vermelho são tão africanos quanto os árabes ao norte do Saara.  Mas se o Mar Vermelho pode ser ignorado para a determinação dos limites a nordeste de África, por que não poderia o Mediterrâneo também ser ignorado como um delimitador ao norte? Houve, de fato, um tempo no qual o Norte da África tido como uma extensão da Europa. Isto remonta aos dias de Cartago, da colonização helenística e, mais tarde, do Império Romano. O conceito de “Europa” estava, no máximo, em formação àquele tempo. Nas palavras dos historiadores R. R. Palmer e Joel Colton:5 > Não havia realmente uma Europa nos tempos antigos. No Império Romano podemos ver um mundo mediterrâneo, ou mesmo um Ocidente e Oriente nas porções latina e grega. Mas o Ocidente incluía partes da África, além da Europa [...]. Mesmo tão tardiamente quanto no século dezessete, a ideia de que a porção de terra ao sul do Mediterrâneo era algo distinto da porção ao norte ainda era uma proposição difícil de compreender. O grande africanista americano, Melville Herskovits, demonstrou como o Geógrafo Real da França, escrevendo em 1656, descreveu a África como “uma península tão grande que compreende a terceira parte, e a mais meridional, de nosso continente”.6 Esta velha proposição de que o Norte da África era a parte sul da Europa teve seu último desesperado suspiro no mundo moderno com a tentativa da França em manter a Argélia como parte da França. O desesperado mito de que a Argélia era a porção sul da França dividiu a nação francesa ao meio nos anos 1950, criou a crise que trouxe Charles de Gaulle ao poder em 1958 e manteve tensões entre a Direita e a Esquerda na França até a independência da Argélia, em 1962, com uma consequência adicional de dissabor na esteira da carreira de Charles de Gaulle. Este esforço em manter a Argélia como extensão sulina de uma potência europeia ocorreu num tempo em que, em outros aspectos, o Norte da África se tornara uma extensão ocidental da Arábia. Do sétimo século em diante, arabização e islamização transformaram a identidade do Norte da África. Por que a fronteira de África foi tida como sendo o Mar Vermelho, os árabes se tornaram um povo “bicontinental” – impossível de assinalar como “africano” ou “asiático”. De fato, a maioria dos povos árabes, por volta do século vinte, estava localizada a oeste do Mar Vermelho (i.e. na África “propriamente dita”), apesar da maioria dos Estados árabes estarem a leste do Mar Vermelho (na chamada Ásia Ocidental). A língua árabe possui, como indicamos, muito mais falantes no atual continente africano do que na Península Arábica. E o árabe se tornou, de fato, a língua individual mais importante no continente africano do presente, em termos de falantes. O argumento em prol de reconhecer a Arábia como parte da África é, agora, muito mais forte do que o reconhecimento do Norte da África como parte da Europa. Islamização e arabização redefiniram a identidade dos norte-africanos mais fundamentalmente do que a galicização ou a anglicização. Apesar da proximidade do Rochedo de Gibraltar em relação à África, o Mediterrâneo é uma linha de demarcação mais convincente entre a África e a Europa do que o Mar Vermelho pode afirmar ser enquanto divisor de África e Ásia. Todas as delimitações são artificiais, mas algumas delimitações são mais artificiais do que outras. A AFRÁBIA tem ao menos dois milênios de história linguística e religiosa que lhe conferem realidade geocultural. --- AFRÁBIA e Apartheid Global Uma tendência mais ampla que vale a pena acompanhar é a emergência do APARTHEID GLOBAL. O mundo Branco está se organizando, a despeito da desintegração da União Soviética e da Iugoslávia. O Pan-Europeísmo está atingindo novos níveis de solidariedade, dos Urais aos Montes Pirineus. Na América do Norte, uma nova megaeconomia está emergindo, compreendendo os Estados Unidos, Canadá e, possivelmente, México. Mas quando se observa mais proximamente esta nova ordem mundial, duas preocupantes tendências emergem. Árabes e muçulmanos são, desproporcionalmente, as vítimas na linha de frente militar da nova ordem. Negros são, desproporcionalmente, as vítimas na linha de frente econômica do emergente apartheid global. A vitimização militar dos muçulmanos inclui: - Permitir a nuclearização de Israel, mas tentar vetar o poder nuclear no mundo muçulmano. - Subsidiar o poderio militar de Israel. - Bombardeio de Beirute pelos EUA, sob Reagan. - Bombardeio de Trípoli e Bengazi, na Líbia, sob Reagan. - Derrubada de um avião civil iraniano no Golfo, matando todos a bordo, sob Reagan. - A decisão de Bush em poupar tempo, em vez de vidas, na crise do Golfo de 1990-91 — levando à morte de centenas de milhares de vidas. - Potencial segundo ataque contra a Líbia. Dois terços das vítimas da atividade militar dos EUA desde a Guerra do Vietnã foram muçulmanos — somando mais de meio milhão de vidas. As vítimas muçulmanas foram primariamente palestinos, iraquianos, libaneses, líbios, iranianos e outros. Se os muçulmanos foram as vítimas na linha de frente militar, os negros foram as vítimas na linha de frente econômica da nova ordem mundial: - Continuidade do apoio a regimes africanos corruptos e incompetentes. - Os horrores do ajuste econômico estrutural sob o FMI e o Banco Mundial no Mundo Negro. - As injustiças do mundo mais amplo dos preços das commodities contra economias africanas frágeis. - A enorme subclasse negra nos Estados Unidos — acrescentando a AIDS e as DROGAS à pobreza, crime e ajuste social. - A ascensão do racismo na Europa (França, Alemanha, Bélgica). - O movimento para a Direita da Suprema Corte dos EUA – ferindo avanços nos direitos civis e de minorias. A nova ordem mundial corre o risco de criar um número desproporcional de ainda mais muçulmanos mortos — ao passo que corre o risco de perpetuar um número ainda mais desproporcional de negros pobres. AFRÁBIA é, potencialmente, parte da resposta. A reconciliação entre árabes e africanos continuará a ser necessária — espera-se, não tão vagarosa quanto a reconciliação entre Grã-Bretanha e EUA após seus confrontos em 1776 e 1812. A entente Afro-Árabe, espera-se, também não será tão superficial quanto a cordialidade entre o Japão e os EUA. Africanos e árabes precisam aprender as lições da celeridade do Japão e dos EUA, e as lições de fraternidade de experiências anteriores de Grã-Bretanha e Estados Unidos. Temos instituições árabes desenvolvidas para ajudar a África — como o Arab Bank for African Development. Não tivemos instituições africanas feitas para ajudar árabes fora de África. As inovações necessárias romperiam o paradigma de árabes sempre como doadores e africanos sempre como receptores de ajuda externa. Instituições AFRÁBICAS concentrariam os recursos, tanto dos árabes relativamente ricos quanto de africanos relativamente ricos — e encaminharia tais recursos às necessidades dos pobres, tanto em África quanto no mundo árabe. Instituições AFRÁBICAS estariam sob controle conjunto de ambos, árabes e africanos. Finalmente, seria concebível que dinheiro africano ajudasse países árabes pobres, como o Iêmen ou mesmo a Jordânia — assim como o dinheiro árabe por vezes ajudou mesmo países africanos bem-estruturados, como o Zaire. Terá este experimento de aguardar pelo momento em que o governo da maioria na África do Sul será conquistado? Terá a primeira ajuda externa de negros a árabes de vir da África do Sul pós-apartheid? Este é, pelo menos, um cenário. Sem tardar após a África do Sul ser tanto libertada quanto estabilizada, haverá a necessidade de uma nova cúpula de Chefes de Estado e Governo árabes e africanos a fim de uma aferição genuína da “Nova Ordem Mundial”. Há de se esperar que, no alto da agenda por uma cúpula Afro-Árabe, esteja a criação de novos e inovadores mecanismos AFRÁBICOS de cooperação. À medida que o passado afro-árabe é esquecido, um novo futuro afro-árabe poderá ser forjado. Pode ser uma defesa mínima contra os perigos do apartheid global. --- Conclusão Vivemos numa era em que a percepção de um povo sobre si mesmo pode ser profundamente influenciada por qual continente ou região se ele associa. Até os anos 1950, a política oficial do governo do Imperador Haile Selassie era enfatizar que a Etiópia era parte do Oriente Médio, em vez de parte de África. Outrossim, foi o próprio Imperador que iniciou a política de reafricanizar a Etiópia, à medida que o resto de África se aproximava da independência. Autopercepções etíopes se africanizaram lentamente desde então. Ainda assim, semelhanças culturais entre a Etiópia e o resto da África Negra não são nem um pouco maiores do que as semelhanças culturais entre o Norte da África e a Península Arábica. Apesar disso, uma decisão europeia de fazer a África terminar no Mar Vermelho desafricanizou, decisivamente, a Península Arábica, e fez com que seus nativos se enxergassem como oeste-asiáticos em vez vez norte-africanos.7 Antes da cisão do Mar Vermelho, houve a cisão de África para criar o Mar Vermelho. Milhões de anos atrás, a crosta da África rachou e o Mar Vermelho nasceu. Como assinalamos, esta tênue faixa de água ajudou a selar a identidade de gerações inteiras de povos vivendo em ambas as suas margens. Entretanto, as mudanças culturais têm tido dificuldade em curar a divisão geológica entre África e Arábia. Os semitas se originaram a oeste ou lesto do Mar Vermelho? Os etíopes do norte são originalmente do sul da Arábia? O Islã tornou o Mar Vermelho uma fronteira culturalmente irrelevante? A língua árabe tornou tal fronteira anacrônica? É chegado o momento em que a tirania do mar como definidor de identidade seja ao menos limitada, senão derrubada? De qualquer modo, a tirania do mar é, em parte, a tirania dos preconceitos geográficos europeus. Assim como os cartógrafos europeus puderam decretar que a Europa estava acima de África no mapa, em vez de embaixo (uma decisão arbitrária em relação ao cosmos), os mesmos cartógrafos também puderam ditar que a África terminaria no Mar Vermelho em vez do “Golfo Pérsico”. Não é chegado o momento de naufragar esta dupla tirania do mar e da geografia eurocêntrica? É bem possível que as pessoas mais difíceis de convencer sejam os habitantes da Península Arábica. Eles desenvolveram o orgulho em serem os “árabes da Ásia” em vez dos “árabes de África”. Eles não estão dispostos a se tornarem membros da Organização da Unidade Africana — por mais benéfico que tal movimento fosse para os problemas de orçamento da OUA. Aceitarão, ao menos, o conceito de AFRÁBIA? Outrossim, se o Imperador Haile Selassie conseguiu iniciar a reafricanização da Etiópia e Gamal Abdel Nasser pôde inaugurar a reafricanização do Egito, a perspectiva de uma reconsideração da nova identidade da Península Arábica talvez possa não ser tão obscura. Na Nova Ordem Mundial, não é apenas a Europa que experimenta o colapso dos muros artificiais da desunião. Não são apenas os EUA, México e Canadá que criarão uma megacomunidade. Não é somente o Sudeste Asiático que aprenderá a readmitir Índia e China à equação. Também cotada em suas possibilidades históricas está a provável emergência da AFRÁBIA — conectando idiomas, religiões e identidades, através tanto do Deserto do Saara quanto do Mar Vermelho, em uma fusão histórica de arabismo e africanidade na Nova Ordem Mundial. Mas será a AFRÁBIA o caso de árabes ricos em uma união com africanos pobres? Na verdade, há países ricos em África, países pobres no mundo árabe — e vice-versa. A AFRÁBIA do futuro poderá ser economicamente liderada pelas economias ricas em petróleo e minérios — mas em uma nova ordem na qual a equidade e justiça contarão tanto entre sociedades quanto têm às vezes contado individualmente em países esclarecidos. Amém. --- Notas: - [N. do T.] ADEM, S. “Africanity, African Intellectuals and the Study of Ethiopia: Thoughts on the Relevance of Mazruiana”. In: EGE, S. et al. (Orgs.). Proceedings of the 16th International Conference of Ethiopian Studies, Vol. 2. Trondheim: Norwegian University of Science and Technology, 2009, pp. 561–572. - [N. do T.] GIACOMAZZI, Gabriel dos S. A categoria 'Afrábia' e seus sentidos para o estudo da sociedade afromuçulmana Suaíli. Anais do X Encontro de Pesquisas Históricas (EPHIS) da PUCRS. 2024. - A questão do Mar Vermelho ser uma fronteira legítima para a África também é discutida em MAZRUI, Ali. The Africans: A Triple Heritage. Londres: BBC Publications/Boston: Little, Brown Press, 1986, capítulo 1. - McEVEDY, Colin. The Penguin Atlas of African History. Harmondsworth/Middlesex: Penguin Books, 1980. - Ver R. R. Palmer em colaboração com Joe Colton, A History of the Modern World. 2. ed. Nova Iorque: Knopf, 1962, p. 13. - Ver a contribuição de Melville Herskovits ao Wellesley College. Symposium on Africa (Wellesley College, Massachussets, 1960), p. 16. - Esta questão também aparece na série de TV de Ali A. Mazrui, The Africans: A Triple Heritage (Londres, British Broadcasting Corporation; Washington D.C., WETA, Public Broadcasting System, 1986). Programa nº 1: The Nature of a Continent.

Discussion in the ATmosphere

Loading comments...